Alzheimer no Brasil e no RS: qual a situação? - Leandro Minozzo

Alzheimer no Brasil e no RS: qual a situação?

Publicado em 13 de agosto de 2018 às 5:41pm

Escrevo esse post para mostrar o quanto é precário o cuidado que se presta às pessoas e às famílias acometidas pela doença de Alzheimer e outras demências no Brasil e, em especial, aqui no Rio Grande do Sul. A cuidado, refiro-me ao conjunto de ações que envolvem o diagnóstico, tratamento, prevenção e pesquisa.

Boa leitura!

É preocupante o crescimento de casos de pessoas acometidas pela doença de Alzheimer e pelas outras demências, como as do tipo vascular e mista, em nosso país. Entre as explicações para esse fenômeno, temos o rápido e ainda surpreendente envelhecimento populacional, que está associado à transição epidemiológica para doenças crônicas não-transmissíveis, das quais as doenças cardiovasculares e as demências fazem parte.

Somam-se à questão do aumento da expectativa de vida e à maior proporção de idosos as características predominantes das pessoas que aqui envelhecem. Falar disso é importantíssimo quando se busca compreender o fenômeno das demências: os idosos brasileiros são marcados pela baixa escolaridade e pelo pouco acesso ao estímulo cognitivo continuado. Seu tempo médio de educação formal é ao redor de 4 anos, enquanto 23% são analfabetos e 49% analfabetos funcionais. E isso guarda, como veremos, forte relação com o surgimento das demências, uma vez que a baixa escolaridade predispõe ao surgimento das demências.

Outro aspecto relevante que explica o crescimento dos casos de demência no país é a exposição desses idosos a diversos fatores de risco clínicos, os quais hoje já conhecemos bem, ao longo de toda uma vida.  É importante lembrar que muitos idosos brasileiros não tiveram e permanecem sem acesso ao diagnóstico e ao tratamento de doenças que sabidamente predispõem ao desenvolvimento de demências como é a diabetes, a hipertensão arterial sistêmica e a depressão. Isso sem falar que a maioria é sedentária, não consome a quantidade adequada de antioxidantes e apresenta problemas com peso corporal, em especial com obesidade.

Aprofundando um pouco nos números, estima-se que no Brasil há entre 1,4 e 1,8 milhão de pessoas com demência (ou seja, 7% do total de 26 milhões de idosos), sendo a maioria casos do tipo doença de Alzheimer. No RS, estima-se que cerca de 120 mil pessoas sejam acometidas. As projeções internacionais dão conta que pelo menos teremos o dobro de casos até 2030, ou seja, mais de 3,5 milhões de brasileiros com algum tipo de demência!

Nesse contexto, trago outra informação que representa as nossas dificuldades em enfrentar os desafios causados pelas demências: segundo pesquisas realizadas no país, a taxa de não-diagnóstico é próxima de 80%.  Segundo o pesquisador Dr. Antonio Nakamura e seus colegas, em publicação no mesmo ano e que tratou desse assunto em um dos periódicos médicos mais conceituados do mundo, o The Lancet, a estimativa é de que, no Brasil, entre 700 a 800 mil pessoas com demência permaneçam sem o devido diagnóstico, tornando o problema ainda maior e diminuindo as chances de um tratamento integral adequado.

A falta de diagnóstico é um aspecto gravíssimo e, na minha perspectiva, simboliza a precariedade do enfrentamento das demências em nosso país. Ao não se identificar a doença, acho importante ressaltar esse ponto, toda uma série de cuidados necessários passa a não oferecido. Refiro-me desde a diminuição de fatores de risco que aumentam as lesões características da doença de Alzheimer, por exemplo, até a prescrição de medicações corretas, que sabidamente prolongam a independência do paciente e melhoraram a qualidade de vida do cuidador.

Essa é uma das explicações possíveis, mas não a única, para o baixo o uso de medicações específicas para tratamento de Alzheimer no país. A proporção dos pacientes que estão em tratamento com medicação pelo SUS em relação ao total de casos estimados, segundo o SISAP/FIOCRUZ, foi de em apenas 23,2%, em 2015. Em alguns estados, como no Rio Grande do Sul, da onde escrevo, essa proporção foi significativamente menor: apenas 3,57% dos pacientes estavam sendo tratados. Esse dado passa fidedignidade quanto ao nível de acesso ao tratamento dos idosos com demência, uma vez que, considerando variações regionais, pelo menos 75% deles tem apenas o SUS como forma de acesso à saúde. 

A falta de diagnóstico de um quadro demencial impede também que o tratamento não-farmacológico, que na minha opinião é a forma mais importante, seja iniciado.  É fundamental que, a partir da identificação dos sinais de adoecimento, se dedique maior atenção ao idoso, que as rotinas da família de adaptem em prol de uma estabilidade emocional de todos, com diminuição ao máximo possível de estressores. As atitudes da família também passam a ser voltadas para melhorar a qualidade de vida da pessoa com demência, isso se dá pela adaptação de tarefas, organização de horários, diminuição da exposição a riscos, como quedas, acidentes domésticos e automobilísticos, erros na tomada de medicamentos, entre outros.

A meu ver, os aspectos que envolvem a falta de diagnóstico das demências atacam diretamente as garantias de direitos humanos fundamentais, como a dignidade e a saúde. Os pacientes e seus familiares perdem a chance de serem tratados com justiça, com equidade e de forma integral – como preconiza as diretrizes básicas do SUS. Dentro dessa mesma perspectiva, de dignidade da pessoa humana, acho importante trazer que são muito comuns os casos de violência contra o idoso nessa condição – e me refiro à violência em suas diversas formas, desde a física, até a psicológica e o abuso financeiro. Na análise de muitas dessas situações de violência, escutamos que esse idoso adota comportamentos equivocados ou falhas cognitivas deliberadamente, ou que é teimoso, “gagá”, “esclerosado”, entre outras tantas denominações.

Precisamos fazer alguma coisa.

 

Leandro Minozzo

(são trechos do meu novo livro, a ser lançado nos próximos dias)

 

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