Discurso “Médicos de Espírito Gigante” – Hoje completo 10 anos de medicina.

Publicado em 14 de dezembro de 2017 às 9:54pm

“Temos a esperança que mais do que uma simples e passageira mensagem de discurso de formatura, que esse enfrentamento profissional possa ser visto daqui a 5, 10, 15 anos e nos encoraje a assumir nosso papel de médico integralmente.”

Dez anos passaram-se e hoje reconheço que as palavras escolhidas para marcar uma data tão profissional estavam no caminho certo. É um discurso escrito por um jovem que tinha sonhos, dúvidas também, mas predominavam os sonhos. Na época, acreditava e muito no papel transformador social da medicina e dos médicos.  Acreditava e muito também no Brasil, que na época saia de um grande escândalo de corrupção.

Fico feliz em perceber que experiências, frustrações e sucessos não me afastam muito daquele jovem. Continuo acreditando no papel transformador do médico e, o que parece mais difícil de acreditar atualmente, no Brasil e nas pessoas que aqui moram.

Deixo o discurso de formatura, que sendo lido hoje me parece muito simples, mas acho que com pontos de valioso significado.

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“Professores que compõe a mesa, senhoras e senhores presentes, colegas, boa noite.  É chegada a ocasião da reunião das pessoas estimadas, das retrospectivas mais introspectivas, do sorriso fácil, da celebração…

Antes de falar sobre significados, sobre o caminho trilhado, sobre perspectivas, quero, em nome de cada um dos formandos, reconhecer o papel fundamental de certas pessoas e agradecer.

“Alicerce:  base ou principal sustentáculo de alguma coisa”

Pais, irmãos, esposos, filhos, avós, namoradas e amigos… reconhecemos em vocês nosso alicerce. Não conseguiríamos enumerar as circunstâncias nas quais a vocês recorremos ao longo da faculdade e de toda uma vida e obtivemos afeto, quer através de carinho, entusiasmo, ou mesmo, um puxão de orelha.  Momentos de dúvida, afirmação, frustração e vitória… Distância, economias, ausências, estresse com provas e escolhas, dúvidas: a tudo isso submetendo vocês, e recebemos apoio. Aos pais dedicamos este momento único.  Hoje, por mais que possamos tentar, não conseguiremos demonstrar o quanto somos gratos por tudo que vocês nos fizeram. A glória desse momento é o reconhecimento de que na vida de cada um de nós não nos faltou amor. Por tudo, agradecemos do fundo de nossos corações. Muito obrigado. Essa cerimônia não teria um porquê senão o de possibilitar que pudéssemos dividir com vocês essa conquista. Juntos, conseguimos!

Gostaríamos também de dividir essa conquista com nossa colega Raica e seus familiares aqui presentes. Com certeza o agradecimento pela graça do convívio com a Raica não é novo para vocês, e o fazemos novamente, agradecendo, agora a vocês por ter-nos possibilitado tal convívio. Com toda a sinceridade do mundo, nosso muito obrigado e nossos parabéns.

Gostaríamos de agradecer aos membros da comissão de formatura pela iniciativa, competência e sucesso em organizar nossa formatura. Sabemos o quão difícil foi abdicar do tempo livre e tentar agradar a todos.

Não podemos deixar de agradecer ao Povo brasileiro, que por intermédio da instituição Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas e seus funcionários, nos propiciou um ensino superior de qualidade, quer em aspectos estruturais, quer em recursos humanos. Em especial, gostaríamos de agradecer aos nossos professores, desde aos das cadeiras básicas até aos preceptores do internato. Com certeza, cada um de nós leva consigo alguns exemplos de profissionais e seres humanos para o resto da vida; pessoas das quais pretendemos espelhar nossa conduta daqui em diante. Destacamos o crescimento da instituição FFFCMPA no período por nós vivenciados, agora se transformando em universidade da área da saúde.

É difícil não traçarmos uma retrospectiva: momentos remotos de nossa infância, tempos de colégio, de preparo para o vestibular ou mesmo dos momentos de dor quando o nome não apareceu no listão, a heróica troca de curso, ou mesmo o momento mágico que foi a aprovação no vestibular, o trote mal-cheiroso, o cheiro do formol, as provas – antecedidas por noites de estudo-, o contato com os pacientes, os plantões, o primeiro parto realizado, os congressos, as confraternizações – onde quem preparava a caipirinha só sabia as proporções para um balde –, os amigos que foram surgindo, o internato, os estudos nessa reta final, as nossas festas desse ano, o agora. Com certeza, foram sonhos, garra, perseverança e muita humildade nesse caminho. Tivemos garra ao enfrentar um curso que demanda muita dedicação acadêmica, muito tempo, habilidades pessoais e convívio com sentimentos alheios, na maioria das vezes pesados. Fomos humildes ao renunciar parte de nossa juventude em prol do estudo, à vezes deixávamos de viver o presente e respirávamos um futuro, onde o ar era o sonho: o de nos transformarmo-nos em médicos. Conseguimos… Em momentos de dúvida sobre nossa capacidade ou ao depararmo-nos com qualquer desafio, não nos esqueçamos jamais que fomos capazes, perseverantes e, acima de tudo, humildes.

Esses seis anos foram, no mínimo, diferentes e marcados por uma tremenda transformação: gurias e guris, esses  de cabeça raspada, tornaram-se adultos, adultos capazes de cuidar do próximo. Nesses anos, tivemos a oportunidade de conhecer o ser humano em situações as mais diversas e adversas, do nascimento até os momentos finais; fomos expostos ao inexplicável, à dor, à iminência da morte, à perda e aos olhares mais desconcertantes possíveis. Tornamo-nos continentes dos sentimentos mais íntimos dos pacientes… fomos ouvidos, tentamos confortá-los; com isso, acabamos amadurecendo e aprendemos que a medicina tem algo mais do que uma ciência: fomos iniciados à arte de ser médico. A humildade, fragilidade e humanidade percebida ao longo desses anos de faculdade fizeram cair por terra qualquer ideal de médico-deus, da arrogância, e deram lugar à imagem de médico como, quem sabe, podendo ser um anjo – amparando o ser humano em seus momentos mais vulneráveis.

Cuidar do próximo, amenizar o sofrimento, acolher a humanidade, quer em sua dor, quer em seu louvor – como hoje juramos – é nossa missão de vida.

Ao longo desses seis anos muitas amizades foram sendo feitas e perduraram. A heterogeneidade da turma nos propiciou convívio com pessoas com histórias de vida bastante diferentes, o que nos trouxe ainda mais aprendizado nesses anos. Ocorreram viagens, competições esportivas – quando gritávamos até ficarmos roucos-, congressos, namoros, grupos de estudo, festas e churrascos. Histórias para sempre. Em nossa turma, algumas características destacaram-se… Através de esforço, arrumando tempo e indo atrás de oportunidades, grande parte de nós participou de pesquisas nas mais diversas áreas, apresentou trabalhos em congressos e se forma vislumbrando um brilhante futuro acadêmico. Tal interesse pela pesquisa traz esperança. Porém, a principal virtude da turma, e a que nos deixa ainda mais otimistas, é algo de que muito se fala: a relação médico-paciente. Desde as aulas de semiologia, quando começávamos a ter contato com pacientes, passando pelas mais diversas cadeiras e estágios, até o internato, onde o contato com pacientes intensificou-se, várias vezes presenciamos um colega atendendo feito um médico de verdade, com empatia, paciência, e, muitas vezes, até acolhendo um choro. Ficou como a marca da AD 2007 essa boa relação médico-paciente.

Aproveitando o assunto relação médico-paciente, é necessário falar sobre a medicina hoje. Nos últimos anos, temos nos deparado com incríveis avanços tecnológicos na área da saúde, avanços genéticos, diagnósticos, uso de células-tronco, transplantes, e uma perspectiva, como que sendo de senso comum, que em breve viveremos pelo menos noventa, cem anos com boa qualidade de vida…. Porém, a mesma ciência de tantos avanços marca passo e fracassa em outros campos até mais simples, como: o tabagismo, que causou 1 bilhão de mortes no século passado segundo a Organização Mundial da Saúde; o uso de outras drogas; a gravidez na adolescência; os acidentes de trânsito; a crescente violência urbana; a crescente contaminação pelo HIV; a falta da ênfase em políticas de prevenção; a obesidade infantil e adulta; o não-diagnóstico e a não-valorização de transtornos mentais; o desgaste na relação médico-paciente e o conseqüente aumento na procura por terapias não ligadas à medicina.. enfim, são problemas que exigem reflexão de todos nós, e deles devemos transpor o simples lamentar e os encarar como desafios.

Sobre o papel do médico na sociedade: ao longo dos anos, por motivos diversos, parte dos médicos foi distanciando-se do foco principal da profissão – que é a saúde da população e do paciente como um todo. Criou-se um ideal individualista entre médicos e estudantes; muitos tendo como meta o topo da pirâmide social, onde estão os pacientes-clientes. Atender os chamados “tigres”(denominação corriqueira para pacientes muito pobres) não faz parte dos planos de ninguém, e o mundo é formado por quatro bilhões dessas pessoas. Por não termos sido mais participativos, nossa profissão acabou perdendo prestígio, consideração e espaço nas decisões sociais. E essas dificuldades vêm fazendo com que o médico deixe de desempenhar seu papel de promotor da saúde para ficar na linha de frente dos problemas sociais – aquele que resolve por compaixão e se cala frente aos problemas, que aceita trabalhar por migalhas, o que têm medo por ter um nome a zelar. O simples passar de responsabilidade para políticos é uma saída incompatível com a importância do médico para a sociedade. Tenho a convicção de que viveríamos num País muito melhor se a classe médica fosse mais coesa e defendesse a saúde de todos. Por exemplo, se há 15 anos tivéssemos entrado forte na questão do controle de natalidade acessível a todos; hoje já seriam centenas de milhares de famílias melhores estruturadas, o que representaria, atualmente, menos violência, por exemplo. Coesão da classe médica: talvez  seja esse o início para resgatarmos nosso papel social. Temos a esperança que mais do que uma simples e passageira mensagem de discurso de formatura, que esse enfrentamento profissional possa ser visto daqui a 5, 10, 15 anos e nos encoraje a assumir nosso papel de médico integralmente.

Voltando ao agradecimento inicial ao povo brasileiro, se faz pertinente algumas palavras sobre nosso País:

Em nossa geração, está enraizado o desânimo quanto ao futuro do País. Vivemos num País com muitos problemas estruturais, marcado pela desigualdade social, violência e denegrido pela corrupção. Estamos entre os dez países com maior desigualdade social; apresentamos o maior número de homicídios do mundo; e, quanto aos valores morais, há anos convivemos com escândalos e mais escândalos de corrupção. Porém, não devemos esquecer de reconhecer os grandes avanços alcançados por nosso Povo. O Brasil foi o terceiro país em crescimento do PIB no século passado, hoje dominamos tecnologias e somos modelo no tratamento de pacientes com AIDS.  O Brasil é um País jovem, que enfrentou muitos entraves: demoramos a abolir a escravidão e a alfabetizar nossa população; tivemos poucos períodos livres da ditadura e opressão – vivemos um “verdadeiro” regime de democracia há menos de 20 anos. Hoje, índices mostram que estamos evoluindo bastante, social e tecnologicamente. Se a situação que nos encontramos hoje está desanimadora, e tínhamos jovens crentes no “país do futuro”, o que será do futuro do Brasil, já que temos vivemos uma geração de descrentes? Precisamos acreditar no Brasil.

Para terminar, retomamos à década em que os jovens de todo o mundo viviam a utopia de conquistas sociais, de mudanças, de quebras de paradigmas, época da qual colhemos a cultura do direito ao protesto, de luta por um sonho… o orador da turma de medicina de 1962 assim disse:  “Os problemas de nosso povo são gigantescos. Para enfrentá-los, precisamos de médicos de espírito gigante, armados com todas as conquistas da ciência, e, ao mesmo tempo, conhecedores profundos de nossa realidade socioeconômica. O médico tem hoje um lugar definido na luta pela emancipação social e econômica de nosso povo. Seu lugar é ao lado dos operários, dos camponeses, dos estudantes, dos profissionais liberais, dos industrialistas, dos intelectuais, dos comerciantes, de todos que lutam por um Brasil livre do subdesenvolvimento e da exploração.” São palavras do jovem Moacyr Scliar, nosso professor. Após 45 anos elas se encaixam perfeitamente em nossa realidade.

Para sermos esses médicos de espírito gigante, para sermos os anjos… basta lembrarmos que.. tivemos garra.. e que.. fomos humildes… Agradecemos mais uma vez a todos os presentes..AD 2007, parabéns! Somos médicos!”

 

 

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