Ideologia: ruim ou necessária? O que compreendo a partir da leitura dos textos do Papa Francisco. - Leandro Minozzo

Ideologia: ruim ou necessária? O que compreendo a partir da leitura dos textos do Papa Francisco.

Publicado em 7 de maio de 2018 às 3:12pm

Esboço algumas compreensões a partir de leituras de textos do Papa Francisco para responder a esses questionamentos cotidianos e do campo da política.

 

Ideologia pode ser encarada como distinta de uma “ciência das ideias”– o que fica mais relacionado à filosofia. Ela pode ser interpretada de diversas formas, dividas principalmente em sua concepção neutra, ou seja, de ser apenas a forma como tu interpretas a realidade, seus fatos e relações, ou então na sua concepção crítica. Nessa última, a ideologia seria baseada em fatos que não encontram sustentação na realidade e com uma utilidade de perpetuar a dominação de determinada ordem social. Confesso que, enquanto médico, esse tipo de análise é difícil e demandaria vasta leitura e validação de conceitos com pessoas da área da sociologia. Mas vale me arriscar por um motivo simples: o uso de “ideologia” como recurso de debate no campo da política tem crescido e acho quase sempre um tanto vazio ou improdutivo.

Basta eu não concordar com uma pessoa ou um coletivo que apresentem ideias contrárias à minha que posso empregar o recurso: isso é uma ideologia. Como se houvesse um vírus contagioso, algo assim. E, em termos de debate, é uma tática que satisfaz bastante quem dela se utiliza. Mesmo que os argumentos apresentados não se articulem de maneira lógica ou encontrem respaldo na realidade, chamar o “oponente” de ideológico é uma forma rápida de atacá-lo, reduzindo-o enquanto agente digno de uma discussão sadia, e, ao mesmo tempo, derrubando, com uma cartada, todo o sequenciamento de ideias apresentadas. Estatísticas, dados, exemplos, fatos históricos – tudo passa a ser enquadrado como ideologia e o diálogo se encerra. “Tu és um fanático”. “Tu estás numa seita”. E ponto.

Estou negando a existência de ideologias? Não. Muito menos descartando que elas, enquanto na sua concepção crítica, são sim formas de dominação, de perpetuação de disposições sociais terríveis e, também, de deturpação da realidade. Nessa onda de fakenews e fatos alternativos (outra forma de denominar a mentira), misturada e propagada com base em inseguranças sociais reais – empobrecimento e medo –, percebo que há a necessidade de falarmos sobre o tema. Posso dizer que as ideologias se encontram em praticamente todas as formas de expressão, no discurso, na forma como nos vestimos e nos relacionamos. Ideologia diz respeito à forma como nos avaliamos, fazemos classificações e lidamos com os nossos desejos.

Porém, há a interpretação de que ideologias podem, sim, serem baseadas em fatos reais e sem o propósito de manter relações de dominações sociais, raciais, de gênero ou econômicas. Um conjunto de crenças que dão propósito, significam o cotidiano. Um ideal (do latim ideale = princípio, valor). Algo como o tripé “liberdade, igualdade e fraternidade”, da Revolução Francesa. Seria aquele conjunto de sonhos, como uma utopia a ser seguida, que move em determinada direção. Algo, dessa forma, mais leve e que estaria de acordo com o desejável ou aceitável pela patrulha moral dos nossos tempos.  Seria a ideologia provavelmente desejada nostalgicamente por Cazuza frente a tanta desilusão, angustiado frente ao espelho na pós-juventude, como mostra a sua música.

De um lado, a ideologia da inflexibilidade, que perpetua dominação, baseada em fatos verídicos ou adulterados que mascaram a realidade. Do outro, o “idealismo” natural ou sadio. Essas duas formas, dizem respeito ao termo ideologia, mas são completamente diferentes.

Trago à discussão algumas posições bastantes atuais referentes à análise da ideologia. Posições do Papa Francisco, com sua ponderação característica e ímpar visão de mundo. Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, “A Alegria do Evangelho”, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual ele fala nove vezes sobre ideologia.

Na passagem mais direta e rica sobre tema, fica marcada uma descrição ampla sobre tipos de ideologias que contrapõem o senso comum em nossa sociedade. Por aqui, no Brasil, costumamos perceber o rótulo de ideológico principalmente quando se refere, com desmerecimento normalmente, ao conjunto de ideias ou perspectivas de interpretação do mundo vinculados à esquerda, à centro-esquerda ou progressistas. Sim, no debate atual esse recurso tem sido empregado principalmente nesse sentido – não que seja o único. Porque existe também o mesmo no sentido opostos.

Na leitura do texto do Papa, marcou-me bastante a seguinte passagem:

“Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Esse desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real pode de compra. A tudo isso vêm juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa diante dos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.” (56)

A ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma ordem social mais humana.  (57)

 

Pergunto: se ele não se refere diretamente à ideologia do neoliberalismo, a qual outras o Papa Francisco se dirige tão detalhadamente? É de se pensar.

Talvez, para muitos seja isso uma novidade porque ainda há aqueles que negam as características do neoliberalismo como muito mais intrusivas do que qualquer outra ideologia, principalmente porque ela se faz de maneira muito sutil, invisível e impenetrável aos olhos da crítica.  No entanto, no que interpreto do mundo, o neoliberalismo constitui-se, sim, como uma ideologia no sentido crítico, sendo, aliás, a dominante no mundo ocidental e, na maior parte dos segmentos, mídia, cultura e desejos de brasileiros. Na década de 80 já havia essa indicação de ideologização do modelo macroeconômico, pois ele deveria “atingir almas e corações”, segundo a própria Margareth Tatcher. E, em 2018, é o que temos, corações e almas em competição, marcadas pelo individualismo e egoísmo e uma dificuldade tremenda em vida em sociedade.

No Brasil, pouco discutimos ou falamos sobre essa ideologia. E vejo isso como extremamente necessário quando desejamos compreender melhor os fenômenos sociais e rascunharmos um projeto para uma sociedade melhor, inclusiva, justa e de possibilidades.

Mas retomando ao Papa, em outras manifestações ele condena diversas formas de ideologia, marcadas pela inflexibilidade e ausência de contextualização – inclusive de membros da própria Igreja. Em outros momentos, ele afirma que não se deve tratar o cristinanismo enquanto ideologia, justamente por essa questão de fechamento ao próximo – de comunhão – e pela incapacidade de reflexão que a ideologização normalmente acarreta, como em sua mais recente publicação, Gaudete et Exsultate, agora de abril de 2018. Nesses sentidos, portanto, de ideologias estarem relacionadas a interpretações excludentes e limitadas, com propósitos escusos que envolvem dominação mesmo que de forma não intencional, fica a posição contrária também do Papa à “ideologia”.

E o nível de acidez e pobreza do nosso debate está tamanho que, ao anunciar o Evangelho e falar dos ensinamentos de Cristo na defesa dos pobres, da tolerância e da humanidade em comum, Francisco é alvo constante da pecha de ideologizado. A própria CNBB esse ano, ao provocar a reflexão sobre a geração e perpetuação da violência, abordando a questão carcerária, também foi alvo dessa mesma prática.

A mim, fica a resposta do título. Ideologia é algo bom ou ruim? Primeiro, seria necessário diferenciarmos a ideologia do idealismo ou aquela forma natural que diz respeito a como interpretamos fatos sociais do mundo; diferente daquela relacionada ao fechamento dentro de um conjunto de crenças. Eu, de uns tempos pra cá, resolvi chamar justamente a ideologia “juvenil”, de sonhos e utopias, de “idealismo” – mesmo havendo confusão com esse conceito por ele se referir a uma escola filosófica. Destaco que ela pode ser sentida em qualquer fase da vida; tenho muitos pacientes idosos que são idealistas por um mundo melhor e são muito flexíveis em seus pontos, além de serem tolerantes e conseguirem se colocar constantemente no lugar de aprendiz. Sendo ideologia nesse sentido, eu acho que é excelente que cada pessoa tenha uma para si, que a construa aos poucos, com sabedoria. Que construa, principalmente, na perspectiva de não ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Ela pode ser até mesmo uma “vacina” contra a adoção involuntária de um conjunto doutrinário feita por medo, insegurança ou questões simplesmente indentitárias.

Quanto a ser algo natural, intrínseco, daí não cabe avaliar quanto negativa ou positiva, pois ela fica mais como uma condição humana – muito ligada à cultura. Os estudos nessa área nos ajudam, e pode ajudar ainda mais, a compreendermos melhor as relações intra e interpessoais e percebê-la em diversos aspectos das nossas vidas.

Em sua última forma, a ideologia quando fechada em si, com inflexibilidade, marcada por uma capacidade de criar ou perpetuar relações de dominação social, econômica, de gênero ou racial, ela é, sim, ruim. É perigosa, impede o amadurecimento individual e causa sofrimento aos outros. No aspecto de gênero, por exemplo, o machismo é completamente ideológico quando interpretado na perspectiva crítica. Porém, não é normalmente visto assim. Ele é completamente relacionado à manutenção de relações de dominação de corpos, mentes e funções sociais das mulheres. O movimento feminista, ao contrário, é amplamente rotulado (intencionalmente, como estratégia de manutenção do machismo) com o lado nefasto do conceito de ideologia, como sendo radical ou inflexível. No entanto, ao observá-lo, não consigo concordar com o rótulo de ideologia porque não o vejo como voltado a estabelecer a dominação da sociedade pelas mulheres, contrapondo o status presente de patriarcado, mas fazendo a necessária busca por igualdade e equidade. E essa opinião é bastante articulada pela filósofa Márcia Tiburi.  Olha, como é interessante fazermos essas reflexões. Provavelmente, a riqueza desse debate deva estar nas suas sutilezas.

Trouxe rapidamente a questão do neoliberalismo ser uma ideologia, apesar de pouco se acreditar nisso aqui no Brasil. Não poderia ressaltar também que temos, infelizmente, outra forma de ideologia em nossa sociedade que é o fascismo. Uma ideologia perigosa, violenta, e antiliberal, antidemocrática. No caso, duas ideologias sem qualquer idealismo, sem qualquer sonho ou utopia.

Poderia também falar do uso de ideologias em movimentos ditos religiosos, em seitas. Assim como destacar que o racismo é certamente ideológico.

Além dessa definição de significados e consequências, refletir sobre ideologia me provoca a apresentar os caminhos para que o tipo péssimo, o da dominação, não se perpetue ou que não seja empregado para impedir e interromper as discussões que levantaremos nos próximos meses. Vejo que aqueles interessados em participar ou serem protagonistas nesse intento, deverão observar-se constantemente, buscando: a tolerância, a abertura ao próximo, o despertar o sendo de humanidade comum, o exercício da paciência e a compaixão. São virtudes que ajudaram a sermos idealistas e não ideológicos, no sentido de sermos dominado por um pensamento fechado em si.

Encerro esse texto com a paz que Papa propaga ao vivenciar a Oração de São Francisco em tempos difíceis.

“Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a de um inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra.” (Papa Francisco ao final de Evangelii Gaudium)

 

Meu fraterno abraço, Leandro Minozzo

Médico geriatra

Novo Hamburgo- RS | Rua Nações Unidas, 2475 sala 203 - Bairro Rio Branco – Tel. (51) 3035 1240 ou (51) 9818 2595 | leandrominozzo@gmail.com

2015 - Todos os direitos Reservados