Hillary Clinton e a pneumonia: conheça a vacina para essa doença.

Hillary Clinton e a pneumonia: conheça as vacinas para essa doença.

Publicado em 30 de abril de 2018 às 6:05am

Publico novamente o post sobre a pneumonia da Hillary. Acho importante falarmos sobre a prevenção para essa doença.

Na semana passada, a candidata à presidência dos EUA, Hillary Clinton, sentiu-se mal e precisou de atendimento médico. Provavelmente, devido à sobrecarga da campanha, sua imunidade não conseguiu poupar-lhe de uma pneumonia. Resultado: desmaio, desidratação e afastamento dos palanques, dando margem a pequeno, porém sempre preocupante, crescimento do rival Donald Trump. Houve muito especulação, inclusive com questionamentos quanto à saúde e condições de Hillary para ser a presidente.

hillary

Hillary, com 68 anos, portanto uma pessoa idosa (por lá o limite etário para essa definição é a partir dos 65 anos), independente de qualquer condição de saúde, estava e está em risco para o desenvolvimento de pneumonia – a doença “amiga” dos idosos, conforme disse o Dr. William Osler, no final do século 19.

Mas o que podemos capturar de informação relevante, qual o gancho para a educação em saúde nesse caso de adoecimento de uma celebridade: lembrar da vacinação específica para a pneumonia.

Primeiro, destaco que é um assunto diferente da vacinação para a gripe.

Sabe-se que  anualmente ocorre a campanha nacional de vacinação contra a gripe. Gestantes, crianças, pessoas de determinados grupos de risco e idosos precisam tomar a vacina, principalmente depois do susto que tomamos com a epidemia de 2009. Era plantonista naquela época e realmente foi uma situação tensa: precisávamos atender com máscara, víamos pessoas piorarem rapidamente e todos médicos se assustaram. Tomara que não se repita tão cedo!

Sobre a vacina, mesmo com aquele susto,  há ferrenha resistência de alguns idosos. Porém sabemos que ela “funciona”,  previne os idosos da gripe, diminuindo, consequentemente, riscos de desenvolvimento de doenças associadas, como o infarto do miocárdio. Isso mesmo: a vacina da gripe está associada à incrível redução de até 30% nos casos de infarto!

Com o adoecimento de Hillary Clinton, acho pertinente aproveitar a ocasião para destacar a necessidade da imunização contra outra doença respiratória bem comum na terceira idade: a pneumonia. Preste atenção! Não tem nada a ver, ao menos diretamente, com a gripe – doença causada por um vírus.  A questão é outra: uma infecção bacteriana dentro dos pulmões, causando mal-estar, desidratação, insuficiência respiratória e que pode ocasionar internações e evoluir para a perigosa sepse.

Trata-se, portanto, de uma vacina específica contra determinados tipos da bactéria chamada pneumococo – Streptococcus pneumoniae.  Ela é responsável por grande parte dos casos de pneumonias graves e infecções generalizadas nos idosos. Por alterações próprias do envelhecimento, somadas à doenças como bronquite e diabetes, muitos idosos são mais vulneráveis a esse tipo de infecção.

O SUS disponibiliza a vacina pneumocócia 23-valente (polissacarídica) aos idosos acima dos 60 anos acamados, aos que apresentam doenças graves cardiovasculares e respiratórias ou, então, aos que residem em instituições de longa permanências – denominação técnica para lares, residenciais de repouso e asilo, como queiram –, além daqueles internados em hospitais. Basta a solicitação do médico assistente e a vacina é feita gratuitamente.

Existe outra vacina, mais recente, chamada conjugada 13-valente (13 v), que também protege contra o pneumococo. Ao contrário da 23-valente, ela é feita em dose única. Pode ser indicada já a partir dos 50 anos em pessoas com doenças crônicas (bronquite, asma, diabetes, problemas cardíacos, etc) ou aos 60 anos em pessoas saudáveis. Ela encontra-se amplamente disponível em clínicas de vacinas, ao custo aproximado de 260 reais.

A conduta mais correta atualmente é que se ofereçam os dois tipos de vacina  a todos os idosos. O detalhe importante é que se faz necessário um intervalo de 6 meses ou de 12 entre as aplicações(*). O ideal é que sempre seja o médico que faça essa prescrição.(4)

E aqueles com 65 anos ou mais e que não se enquadram nos critérios de distribuição gratuita do SUS?

Enquanto os critérios do Ministério não mudam, esses idosos devem procurar clínicas privadas para fazer a imunização. Vale a pena. Uma pesquisa feita em São Paulo, publicada em 2011, mostrou que a vacinação é extremamente custo-efetiva e deveria ser incentivada pelos agentes de saúde. (2) Os efeitos adversos são leves, como, do tipo eritema (vermelhidão) e dor local. Febre, dor muscular e reações locais graves ocorrem em menos de 1% dos adultos vacinados.

Quanto aos benefícios da vacina, segundo uma pesquisa feita com idosos na Espanha, cabe destacar sua efetividade, que pode chegar a mais de 75% em pacientes sem alterações imunológicas. (3) Uma revisão da Cochrane foi até mais longe, indicando uma efetividade superior a 80% (82% para doenças invasivas).

O assunto é importante, pois há muito sabemos que a pneumonia é uma das principais causas de morte nos idosos.

No caso específico da candidata Hillary Clinton, há a suspeita que a pneumonia possa ter sido causada por uma outra bactéria, chamada Mycoplasma pneumoniae. A especulação na imprensa e em médicos consultados deve-se ao fato da candidata vir com sintomas como tosse já há mais tempo. A doença pelo M. pneumoniae cursa com um quadro realmente mais insidioso e brando. Bom, mas isso tudo fica muito quadro de especulações. Os médicos que dela cuidaram não revelaram maiores detalhes.  No entanto, o que sabemos em termos de epidemiologia – ciência que estuda as “estatísticas da saúde” – é que o principal vilão é o pneumococo.

Converse com seu médico.

 

Grande abraço, Leandro Minozzo

 

(*) Para médicos: A SBIm e a SBGG recomendam a vacinação rotineira de maiores de 60 anos com VPC13, seguida, após seis meses a 1 ano, de VPP23. Para aqueles que anteriormente receberam uma dose de VPP23, respeitar o intervalo de um ano para aplicar a VPC13 e agendar uma segunda dose de VPP23 para cinco anos após a primeira VPP23.  Se a segunda dose de VPP23 foi aplicada antes dos 65 anos, está recomendada uma terceira com intervalo mínimo de cinco anos.

 

(1) Calendário de Vacinas do Adulto do Ministério da Saúde:

 http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=21464

 (2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3256326/

(3) http://cid.oxfordjournals.org/content/40/9/1250.full

(4) Calendário de Vacinação do Idoso (SBIm 2013/2014)

Outras referências:

 N Engl J Med. 2015 Mar 19;372(12):1114-25.

http://erj.ersjournals.com/content/early/2015/07/09/13993003.00325-2015.long

 

 

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