Lítio na água pode prevenir demência? Estudo dinamarquês aponta que sim. - Leandro Minozzo

Lítio na água pode prevenir demência? Estudo dinamarquês aponta que sim.

Publicado em 26 de agosto de 2017 às 10:46pm

Volta e meia as propriedades das águas, em especial as ricas em minerais, voltam à discussão. Dessa vez, o mineral envolvido não é o sódio, mas o lítio. Isso mesmo, o mesmo mineral usado no tratamento para o transtorno do humor bipolar está presente na água. E o interessante veio de estudo publicado na última semana num dos periódicos de psiquiatria mais respeitados do mundo, o JAMA Psychiatry.  Segundo pesquisadores dinamarqueses, o consumo regular de água com teores mais elevados de lítio está associado  à redução no risco de demência, tanto de doença de Alzheimer quanto de outro tipo comum chamado demência vascular.

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Sabe-se que o lítio, usado como estabilizador do humor – aliás, um dos medicamentos que mais funciona para essa finalidade -, apresenta também efeito neuroprotetor. E isso justificaria o resultado desse estudo.

A pesquisa foi feita ao longo de duas décadas, acompanhando o desenvolvimento de casos de demência e análises da água de aproximadamente 800 mil pessoas, sendo que 73,7 mil tornaram-se doentes. Aqueles que consumiram água com quantidades mais elevadas do mineral (acima de 15,0 µg/L) apresentaram risco 17% menor para demência. Águas com pelo menos 10µg/L já apresentaram efeito preventivo.

Em outras pesquisas, não se conseguiu associar essa capacidade ou associação com o desenvolvimento ou prevenção de outras doenças mentais, como bipolaridade e o suicídio.  No entanto, o resultado positivo na prevenção de demência abre espaço para um aumento nas pesquisas.

O mesmo grupo já havia comprovado em 2008 e 2010 que pacientes com bipolaridade, uma doença que pode aumentar o risco para desenvolvimento de Alzheimer, quando tratados com lítio por longo tempo, apresentavam redução nesse risco.  (Arch Gen Psychiatry. 2008 Nov;65(11):1331-5. E Bipolar Disord. 2010 Feb;12(1):87-94.)

Notícias como essa costumam ser bem recebidas, ainda mais com um método de pesquisa bem feito e a chancela de um periódico respeitável. Sobre o assunto “lítio e prevenção de Alzheimer”, lembro que pesquisadores do Instituto de Psiquiatra da Universidade de São Paulo já fazem pesquisas há mais de uma década, também com indicativos promissores. (http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-26052006-161252/pt-br.php)

Quem sabe surja uma nova adição de mineral nas águas, tal como acontece com o flúor para as cáries?  Certamente, quando do começo dessa prática, que deu muito certo, havia descrença.

No século passado, nos Estados Unidos, houve uma febre com a chamada Lithia Water. Rica em lítio, a água foi comercializada como benéfica para saúde até o final da Segunda Guerra. Seria a volta de uma lenda?

Enquanto não temos um tratamento para as demências, em especial para Alzheimer, temos que focar sempre na prevenção. E, que bom que estão surgindo cada vez mais pistas. Pesquisas sobre prevenção de demência são difíceis de serem realizadas, devido ao tempo para desenvolvimento dos sintomas e à complexidade da doença. Agora, se tentará realizar novos estudos, em pacientes com risco elevado.

Quem sabe?

Grande abraço, Leandro Minozzo

Obs.: Não tome lítio ou faça qualquer adição por conta. Trata-se de um conjunto de pesquisas incipientes e essa prática de automedicação pode ocasionar problemas sérios de saúde, como arritmias, alterações renais e na tireóide.

 

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deixo o resumo do artigo:

JAMA Psychiatry. 2017 Aug 23.

Association of Lithium in Drinking Water With the Incidence of Dementia.

Kessing LV1Gerds TA2Knudsen NN3Jørgensen LF4Kristiansen SM5Voutchkova D4,5,6Ernstsen V4Schullehner J4Hansen B4Andersen PK2Ersbøll AK3.

Author information

Abstract

IMPORTANCE:

Results from animal and human studies suggest that lithium in therapeutic doses may improve learning and memory and modify the risk of developing dementia. Additional preliminary studies suggest that subtherapeutic levels, including microlevels of lithium, may influence human cognition.

OBJECTIVE:

To investigate whether the incidence of dementia in the general population covaries with long-term exposure to microlevels of lithium in drinking water.

DESIGN, SETTING, AND PARTICIPANTS:

This Danish nationwide, population-based, nested case-control study examined longitudinal, individual geographic data on municipality of residence and data from drinking water measurements combined with time-specific data from all patients aged 50 to 90 years with a hospital contact with a diagnosis of dementia from January 1, 1970, through December 31, 2013, and 10 age- and sex-matched control individuals from the Danish population. The mean lithium exposure in drinking water since 1986 was estimated for all study individuals. Data analysis was performed from January 1, 1995, through December 31, 2013.

MAIN OUTCOMES AND MEASURES:

A diagnosis of dementia in a hospital inpatient or outpatient contact. Diagnoses of Alzheimer disease and vascular dementia were secondary outcome measures. In primary analyses, distribution of lithium exposure was compared between patients with dementia and controls.

RESULTS:

A total of 73?731 patients with dementia and 733?653 controls (median age, 80.3 years; interquartile range, 74.9-84.6 years; 44 760 female [60.7%] and 28 971 male [39.3%]) were included in the study. Lithium exposure was statistically significantly different between patients with a diagnosis of dementia (median, 11.5 µg/L; interquartile range, 6.5-14.9 µg/L) and controls (median, 12.2 µg/L; interquartile range, 7.3-16.0 µg/L; P?<?.001). A nonlinear association was observed. Compared with individuals exposed to 2.0 to 5.0 µg/L, the incidence rate ratio (IRR) of dementia was decreased in those exposed to more than 15.0 µg/L (IRR, 0.83; 95% CI, 0.81-0.85; P?<?.001) and 10.1 to 15.0 µg/L (IRR, 0.98; 95% CI, 0.96-1.01; P?=?.17) and increased with 5.1 to 10.0 µg/L (IRR, 1.22; 95% CI, 1.19-1.25; P?<?.001). Similar patterns were found with Alzheimer disease and vascular dementia as outcomes.

CONCLUSIONS AND RELEVANCE:

Long-term increased lithium exposure in drinking water may be associated with a lower incidence of dementia in a nonlinear way; however, confounding from other factors associated with municipality of residence cannot be excluded.

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