O Estado deveria criar espaços para acolhimento dos desempregados. Todos se beneficiariam. - Leandro Minozzo

O Estado deveria criar espaços para acolhimento dos desempregados. Todos se beneficiariam.

Publicado em 11 de abril de 2018 às 10:48am

Talvez sejam 15. Talvez sejam 20. Talvez 25 milhões de brasileiros sem emprego ou sem um emprego formal, com carteira assinada.  Entre os jovens, de 25 a 30% não conseguem um trabalho.

As pesquisas apontam que mesmo havendo uma glamourização do empreendedorismo, esses jovens gostariam mesmo é de um emprego.

 

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Se não me engano, temos 50 mil engenheiros desempregados. Pessoas altamente qualificadas que estão em casa ou fazendo bicos.

Desde o ano passado, milhares de professores universitários com mestrado e doutorado somaram-se aos que já vinham com dificuldades em conseguir uma posição na academia. Sonham em voltar a fazer chamadas e a ter o contato direto com os alunos. Muitos serão substituídos por um estoque de desempregados ou por tutores de EAD.

Na região metropolitana de Porto Alegre, é quase uma cidade inteira de Novo Hamburgo nessa situação – de “descarte”. São mais de 200 mil pessoas!

Não à toa, basta olhar para as ruas com mais atenção que percebemos centenas de catadores de material reciclável e de resto de comida nos lixos.

Ao ler a Constituição, no entanto, temos lá que o trabalho é um direito social de todos. Ao estudar medicina, aprendi e testemunho que o trabalho faz parte da saúde. É uma dimensão dignificante e mais ainda: vivificante!

Direito e saúde.

Nessa situação, não me esqueço que o desemprego é como uma doença social terrível, que aos poucos pode roubar a dignidade de quem a sofre, empurrando-a para depressão em suas diversas formas.  Penso também no conceito de capital humano. Penso em tudo que desperdiçamos enquanto nação. Afinal, são potencialidades perdidas. Temos pessoas com diversas competências, com muita disposição e, ao mesmo tempo, que se sentem péssimas pela condição de estarem fora do mercado de trabalho. Péssimas por se sentirem inúteis. Péssimas por experimentarem o lado nefasto da dualidade sucesso-fracasso, mantra subliminar da sociedade neoliberal, na qual a maioria, de maneira míope ou bitolada, enxerga como única alternativa.

Não se trata, de forma alguma, de uma condição fácil de lidar e as estatísticas apontam que quase 60% dos desempregados apresentam sintomas depressivos.

É um dos maiores fatores de risco para suicídio.

Mas lembre-se de capital humano – importante pensarmos nisso!

E, nesse contexto todo, para piorar, estima-se que cerca de 14 milhões de vagas de trabalho sejam extintas até 2030 apenas no Brasil devido à tecnologia. Isso mesmo, 2030! Assusta porque 2030 é daqui a 11 anos e alguns meses. E assusta ainda mais porque ninguém parece dar a mínima para isso!

Há no mundo pensante (o não-colônia) muita discussão e teorias sobre o futuro das sociedades em relação à falta de trabalho.  E, entre as soluções para esse problema de falta de emprego, há a distribuição de um “Bolsa-família vitaminado” para cada um dos cidadãos, quer estejam trabalhando ou não, chamado de renda mínima universal.  Loucura? Talvez não.

Outra solução, defendida por capitalistas de ponta, inclusive, seria tributar o uso de robôs nas fábricas. Isso porque estão conseguindo fazer robôs menores, que substituirão cada vez mais seres humanos, como na indústria do calçado, por exemplo. Com esses recursos de taxação sobre as máquinas, seria possível implementar políticas de assistência social aos desempregados por elas. Bill Gates defende isso.

O Papa Francisco, por outro lado, já se assusta com a renda mínima e acha que trabalho é fundamental.

Concordo com os dois. Apesar de achar que nenhum conseguirá frear essa perda de 14 milhões de postos que se somarão aos 20, 25 já em dificuldades no dia de hoje.

Pensar nisso é péssimo. Mas escolher os pensamentos, segundo psiquiatras, é impossível.

Às vezes, algumas “viagens” vêm à minha cabeça. Sonhos. Idéias mágicas.

Mágicas não porque careçam de nexo ou de sustentação, mas pelas dificuldades que seria colocá-las em execução num mundo difícil, egoísta, “meritocrata” e repleto de medo. Pode ser que eu tenha assistido muito desenho animado na infância, que no final sempre se dava um jeito para o BEM prevalecer. Ou quem sabe prestei muita atenção nas aulas de catequese e crisma, ou tenha algum gene que me faça pensar assim.

Mas venha comigo numa dessas viagens.

Se de um lado temos 50 mil engenheiros desempregados e de outro pré-adolescentes e adolescentes que patinam em matemática, física e química, por que não possibilitar ocupação temporária para que esses profissionais possam ajudar na educação dos jovens?

Se temos estruturas péssimas em escolas, postos de saúde e espaços públicos, porque não criar engajamento dessas pessoas para que possam ajudar a resolver esses problemas?

Não seria uma função social fundamental para as universidades públicas e comunitárias a reciclagem, a socialização e a reinserção dos desempregados no mercado de trabalho?

Vou mais longe: e as escolas? E as empresas públicas? Não poderiam se beneficiar de mão de obra qualificada por algum tempo?

Haveria entraves jurídicos, burocráticos, etc? Claro, mas todos superáveis. Todos menores que os princípios constitucionais.

Já imaginou que bárbaro um curso teórico, prático e social de reinserção? Algo colaborativo, quem sabe cooperativo. E imaginou o Estado liderando esse processo e se beneficiando e muito de tantos talentos.

Talvez quem tenha visto um homem ou uma mulher mudar seu semblante, readquirir um brilho no olhar após voltar a se sentir útil entenda essa minha viagem. Talvez quem não tenha se sentido impotente e triste frente a um homem ou a uma mulher sob o signo do vazio existencial não entenda nada do que eu esteja querendo dizer.

São pessoas que precisam se sentir úteis. Não digo que devam ser obrigadas a fazerem qualquer trabalho em troca do auxílio-desemprego, como proposto no Reino Unido recentemente. Acho, sim,  que oportunidades deveriam ser construídas para que esses trabalhadores em potencial possam se sentir úteis novamente. Que alguém lhes ajude a encontrar esperança e significado em suas vidas. Digo isso porque tem muitas situações que só a fluoxetina não adianta, nem o Lexapro. E, por outro lado, desconectar o ser humano da crise social que o desemprego lhe expõe é terrível. Reforçar nele seu fracasso é terrível.

Essa “viagem” é uma das que constituem uma “sociedade do cuidado”, da qual tenho me pego pensando nos últimos meses.

Dizem, os que entendem mais da vida e do mundo das idéias e das intenções, que elas estão por ai. Não são pessoais. Vagam por mentes. Num dos seus principais livros, “O Suicídio”, Èmile Durkheim trouxe o suicídio como fenômeno social. Importante essa interpretação. E resgatá-la em tempos de dificuldades de se compreender o adoecimento humano se faz necessário. Acho que precisamos cada vez mais contextualizar sintomas e queixas. Como tratamento e prevenção do suicídio, olha que interessante, ele apontou que cooperativas ou grupos de trabalho seriam a alternativa.

Trabalho. Utilidade. Esperança.

Um espaço para a Pedagogia da Esperança, paulofreireando. Um espaço para construção de sentidos.

Passaram-se mais de 120 anos e essa é a alternativa que se apresenta agora como mágica.

Abençoado é o povo que encara certas “viagens”, certos delírios de cuidado como sonhos. E que sejam também aqueles viajantes que, apesar de limitações, não hesitem em embarcar num trem rumo à utopia.

 

Leandro Minozzo

 

 

Link sobre desemprego e risco para suicídio.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-09/crise-economica-desemprego-e-preconceito-aumentam-o-risco-de-suicidio-diz-ipea

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