O neoliberalismo enquanto ideologia desafia a medicina: o papel do cuidado e da humanização dos pacientes como forma de resistência. - Leandro Minozzo

O neoliberalismo enquanto ideologia desafia a medicina: o papel do cuidado e da humanização dos pacientes como forma de resistência.

Publicado em 4 de maio de 2018 às 11:02pm

Angústia, medos, insatisfações e o vazio existencial são próprios da natureza humana. Filósofos e psicanalistas buscaram e tentam compreender esses fenômenos já há muito tempo. Provavelmente, continuarão na tarefa de entendimento do homem, da cultura e da relação entre os dois, cada vez com mais informações e conflitos para análise. Como médico, enxergo alguns fatos preocupantes em consultas, conversas com amigos, textos de diversas fontes e em tudo que chega a mim ou que busco em termos de informação. Esses aspectos culturais, as queixas e os sintomas, em conjunto com estatísticas, aumentaram meu desconforto em relação ao processo de surgimento de doenças – ou de transtornos ou de novos modos de vida (normose) caracterizados pela insatisfação crônica. Vim ao teclado, na verdade, por uma razão profissional e vivencial.

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Não há pretensão de conseguir encaixar definitivamente, ou com qualquer brilho, aspectos culturais na lógica “sintomas-hipóteses-causa-tratamento-prevenção”. Questionar, porém, quais as conexões entre o social com o individual que justificam o crescente adoecimento será o objetivo principal do texto. E, por fim, arriscar deixar algumas alternativas possíveis na prática médica.

Sou clínico-geral e geriatra. Passei por experiências em pronto-atendimentos, emergências e há quase dez anos me dedico ao consultório. Atendo adolescentes, adultos e, principalmente, idosos. Homens e mulheres. Coloquei, desde a época da formação, a escuta no centro do atendimento que prestaria. Encontro-me agora, posso analisar dessa forma, numa transição dentro da carreira, entre uma fase de iniciante e uma um pouco mais madura e, por isso, repleta de inquietação. A solução mágica, a rapidez e o pragmatismo já vêm sendo deixados para trás, dando lugar a questionamentos, flexibilidade e buscas. Desse processo, surgiu a recente preocupação com a quantidade e a intensidade de sinais relacionados a um desajuste do ser humano com as características do nosso tempo. Esse desajuste tem sido constatado por muitos profissionais do cuidado em quase todo mundo ocidental e mostra-se em crescimento na última década.  E o que há de diferente?  Algo como um descompasso de insuficiência, entre as limitadas capacidades humanas para um mundo eficiente, de grande velocidade e demanda, que expõe a todas a rápidas transformações em campos individuais, coletivos, desde a comunicação, passando pela sexualidade até o trabalho. O tempo e o espaço desafiam-nos.

Quando adolescente, no final da década de 90, ouvia e lia sobre questões de adoecimento que hoje me preocupam, mas naquela época achava que nos sairíamos bem melhores na tarefa social de amenizar esse problema. Fiz uma redação no final do ensino fundamental sobre a depressão como sendo a doença do século. Lembro-me bem. Refletindo sobre a impressão de que nos sairíamos melhores frente aos novos tempos, ela pode se justificar porque então eu superestimava as capacidades humanas (por ser muito jovem e estar ainda distante de questões mais complicadas da vida adulta) ou, o que pode ter sido ainda mais determinante, não contava com uma mudança social tão significativa que tomou lugar em tão pouco tempo.

Nos últimos anos, psicanalistas – sempre muito atentos e dispostos a escutar e a compreender –, como Paul Verhaeghe, já perceberam a diferença nas queixas de seus pacientes em relação ao padrão dos casos de Freud. Na verdade temos que muitos já publicaram suas percepções e teses e oferecem pontos de discussão muito interessantes acerca do que tento aqui falar.  O predomínio das neuroses cedeu lugar a casos de ansiedade, com raízes nesse descompasso do tempo e do espaço, e a transtornos de personalidade, ligados a aspectos de identidade.

Na saúde, temos marcos extremamente positivos envolvendo tecnologia e aumento da oferta de serviços – muitos ainda relacionados a políticas do bem-estar social mundo a fora (bem anteriores à década de 90). Porém, no campo da saúde pública, percebe-se recente redução do custeio em sistemas de cobertura universal, como o SUS e o NHS. Ressalto que tanto o Reino Unido quanto o Brasil estão adotando medidas socioeconômicas que classificam o investimento em saúde como gasto e apontando para a privatização de serviços – como a criação de um plano de saúde popular, no caso do Brasil. Soma-se a esse cenário a criação tardia de uma política de aumento da cobertura de saúde aos mais pobres nos Estados Unidos (o Obamacare) e agora a tentativa de sua revogação pelo presidente Donald Trump.

Continuando sobre saúde pública, há fenômenos epidemiológicos sem qualquer explicação profunda e digna nos livros de medicina. E, o que mais intriga, não se enxerga caminhos para suas soluções. Refiro-me ao crescimento real em doenças como obesidadedepressão, ansiedade e, o que me assusta mais, suicídio. Alguns dados reforçam a preocupação quanto à situação posta: uma em cada quatro mulheres brasileiras está obesa, as estatísticas de depressão seguem a mesma tendência de crescimento e ela será agora em 2020 a segunda causa de incapacidade em todo mundo; por último, quanto ao suicídio, em todo mundo, cresceu 60% nas últimas quatro décadas, predominando o crescimento entre os jovens.

Essas quatro condições são verdadeiras pandemias e podem ser explicadas em grande parte pelas dificuldades na relação do homem com seus pares e também pela cultura. Elas refletem também uma sociedade que se afasta do propósito do cuidado, que muitas vezes silencia, na indiferença, frente ao (distante) sofrimento do outro. Obesidade, depressão, ansiedade e suicidalidade demandam um tipo de cuidado diferente, envolvem acolhimento, compreensão sem julgamento e continuidade – o que hoje temos pouco a oferecer.

Nesse cenário, precisamos falar de uma lógica que regula nossas relações, nossa educação e, o que ainda não temos tido tanta clareza, nossa saúde. Uma lógica que impacta diretamente o imaginário, os desejos e a forma como nos auto-avaliamos – aliás, ela ampliou a intensidade e a frequência da autocrítica –, refiro-me diretamente ao neoliberalismo. Muito mais que um sistema econômico, marcado pela privatização das funções do estado e individualização extrema das responsabilidades, temos no neoliberalismo (ou capitalismo extremo) um dos fatores mais determinantes para a organização social e também individual do nosso tempo. Seu poder transformador teve o impacto até mesmo maior que aquele de uma religião, refletindo na moral, ou no crescente relativismo moral vivenciado em ambientes familiares e laborais.

Ao analisarmos a fundo sua estrutura, o neoliberalismo enquanto ideologia completa, não como de desejo a um ideal, mas como forma de legitimação e alienação, contrapõe frontalmente os ensinamentos de Jesus Cristo, por exemplo. E, uma vez que 70% dos brasileiros se dizem cristãos, é importante tê-Lo, assim como seus ensinamentos, como referência. De maneira enfática, o Papa Francisco aponta para o peso da ideologia de mercado nos problemas sociais e individuais enfrentados em todo o mundo (em Evangelii Gaudium). São diversos os textos e sermões do Pontífice nesse sentido. No entanto, se visitarmos qualquer religião ou forma de espiritualidade, ou qualquer princípio civilizatório, percebe-se que o neoliberalismo vai também contra todos. Não há nele espaço para misericórdia, compaixão ou amor para o próximo – a não ser, talvez, como competidor, mito (como inimigo ou fantasia de felicidade) ou alguém que funcione como meio para o objetivo fim, tirar vantagem.

Na medida em que oferece um oceano de possibilidades, o neoliberalismo reduz o campo de vida e aprisiona cada um numa pequena ilha deserta. Há uma competição constante, implacável e universal que leva ao desarranjo de vínculos sociais saudáveis, que caracterizam nossa existência gregária.  Margareth Thatcher – símbolo dessa guinada do capitalismo – disse “there is no such thing as society”, ou seja, podemos deduzir que só há indivíduos e empresas em permanente competição. Tivemos, e fica difícil negar, desde a década de 80, um processo, que inicialmente limitava-se ao campo da política econômica, de rejeição da natureza social do ser humano. Características sociais essas que contribuíram para a evolução da espécie e das sociedades ao longo dos milênios foram, lentamente, sendo combatidas e mostrando-se como sem espaço ou utilidade. A nova ordem mundial passou a rejeitá-las, todas. E aos poucos, passamos a pensar, a transferir conceitos questionáveis de economia para dentro das nossas casas e mentes. O discurso penetrou em domínios cognitivos e afetivos.

Além disso, estamos constatando aos poucos que a divisão do bolo não se concretizou. O sistema não dividiu nada. Aliás, em momentos de riqueza concentrou lucros, e nos de crise, distribuiu ônus, aumentando ainda mais a pobreza.  Temos, dessa forma, e estudos mostram isso de uma forma claríssima, um sistema que concentra a riqueza e promove a desigualdade.

Como se já não bastasse, há ainda, voltando a falar na sedimentação do sistema no imaginário individual e na cultura, um dos aspectos mais perversos. No neoliberalismo há apenas dois tipos de pessoas, as bem-sucedidas e as fracassadas. Há uma dualidade entre o sucesso e o nada.  (Penso como devem estar confusos os profissionais competentes e graduados que defendiam abertamente a meritocracia e foram atingidos pelo desemprego nos últimos 24 meses. São quase 15 mil engenheiros sem trabalho só no último ano.)

Houve, inegavelmente, um impacto significativo na forma de pensarmos e até de projetarmo-nos no futuro. A Teologia da Prosperidade e a febre do empreendedorismo autodeterminado se comunicam com esses aspectos, diretamente. Num tempo de valorização extrema do materialismo e da competição, a prática religiosa adaptada às necessidades do mercado cresceu. A casa, o carro, o smartphone e o emprego passaram a intermediar a fé.  E isso é uma novidade? Não.  Novidade é o fato de que hoje muitas pessoas levam, e olhe que loucura, suas vidas como se fossem empresas. Elas “PJtizam-se” até mesmo no nível emocional. Encaram situações, que geralmente envolvem outros humanos, na perspectiva empresarial pragmática do fim, ou seja, no lucro. O que que ganho? Quais os riscos? O que estarei deixando de aproveitar? Pensar e viver assim de certa forma justifica-se pela necessidade de adaptação e de se garantir o sustento – até aí tudo bem, claro. Poderíamos pensar em Darwin, ou na forma questionável como se difundiu sua teoria. Mas incorporar esses dogmas à nossa forma de pensar e de nos relacionarmos leva a uma competição sem fim, ao medo, à insegurança e ao individualismo. O pior: a competição se torna muito mais cruel dentro da mente de cada um e ela é consigo mesmo. A lei do capitalismo selvagem, da competição, da ilusão do poder de escolha e de liberdade quase infinita, perpetua a culpa e deixa-nos vulneráveis. A opção do fracasso causa medo – muito medo –, aniquilando muitas vezes a vontade e a alegria de viver. A tensão constante torna o homem de hoje um poderoso e implacável crítico de si mesmo e um ser que tende à solidão. Por aí, se dá, talvez, o quadro dessa ansiedade socialmente generalizada e de tantas obsessões, cultos, fugas.  Afinal, pergunto:  o que está bom ou é o suficiente? O que é alcançar a felicidade? São respostas que a lógica neoliberal jamais entregará a quem as busca. Para quem a vida não traz boa sorte, ou quem não se cuida o necessário, pode a depressão bater à porta. Outra hipótese é viver de uma maneira em constante insatisfação, potencializada pelo estresse e pela hiperconectividade dominante.

Penso, como médico-testemunha e habitante desse planeta, que o adoecimento crescente e precoce – e enraizado, porque não de consegue mais curar, apenas aliviar manifestações – dos últimos tempos passe por uma capacidade nefasta do neoliberalismo. Aliás, me propus inicialmente a declarar menos e a questionar mais. Então: será que o individualismo exagerado, de competidor, do fim, do que vale a pena ou não, afasta o ser humano de sua natureza? Temos, em muitos pacientes, que as emoções negativas, em especial o medo e a raiva, estão constantemente ativadas – assim como o estresse. Quando em excesso, elas inibem a potencialidade do amor, da fé, da gratidão, da compaixão, do perdão e da alegria. Emoções chamadas de positivas e das quais nós somos dependentes de pelo menos doses homeopáticas. Elas expandem nossa existência humana, nos livram do ressentimento e da desesperança. Tem-se bastante convicção (já também com pesquisas) que tal afastamento adoece rapidamente. Hoje, estudos em todas as áreas da saúde mental comprovam isso, desde a psicanálise, passando pela neurociência.

Felizmente, a maioria das pessoas ainda não guia seus pensamentos e atitudes exclusivamente por essa lógica. Elas não a ignoram, mas a confrontam com os valores morais cultivados antes da década de 80, como que numa forma ambivalente. Confrontam com o que aprenderam com pais e avós, com o que aprenderam, interessante pontuar, nas aulas de catequese.

Mas haveria saída para reduzir o impacto do neoliberalismo na saúde das pessoas? Ou haverá alguma alternativa? Acho que devemos descobrir e construí-la, ou pelo menos questionar um pouco mais o que vemos ou ouvimos. Questionar já seria bem importante. Questionar diagnósticos rápidos e soluções muito simples para problemas de cunho existencial. Não há indicação em nenhuma bula de antidepressivo para quem sofre desse descompasso entre suas capacidades e as demandas do mundo. Questionar, inclusive, se é normal o uso de estimulantes cognitivos por jovens “concurseiros” ou o uso preventivo de antidepressivos por longo prazo ou o seu uso terapêutico ser mantido ao infinito.

Percebam que se podem colocar em discussão muitos aspectos da saúde em tempos tão desafiadores. Trago outro exemplo, o da ilusão, ou perversão (deixo para que vocês definam) de se conseguir uma pílula que resolvesse a sexualidade feminina. Seria possível? Sempre ouvi dizer e acredito que seja um assunto humano e extremamente complexo. É uma queixa frequente até mesmo em consultório de clínico geral e domina consultas com ginecologistas mulheres.  Seria possível dissociar a sobrecarga de tarefas e questionamentos pelos quais passam mulheres da sua sexualidade?

Leiam sobre o impacto do neoliberalismo nos afetos, na sexualidade mundo afora. No Japão, quase um terço dos jovens até 30 anos permanece virgem. Desde Thatcher, creio que as relações sexuais despencaram no mundo ocidental.

Conectar-se pessoalmente a outras pessoas, o que traria, entre outras coisas importantes, um alívio imediato para tamanhas tensões, vem sendo substituído por conexões e relacionamentos digitais e saltitantes.  Relações pessoais, sem dúvida,  nos trazem conforto. E não me refiro exclusivamente ao sexo, mas a abraços, a conversas e, há quem diga, que até a voz humana tem conseguido atingir resultados impressionantes em termos de resgate da humanização.

Penso que, enquanto se constrói uma alternativa, nós que cuidamos dos outros, ajudaremos quando começarmos a tentar compreender os fenômenos do nosso tempo e fugir da lógica, às vezes simplória, de apenas medicalizar a vida das pessoas – de transformar situações humanas em doenças. Ou, quem sabe, devemos enxergar em nós mesmos agentes de conforto, de compreensão dos pacientes e de ajuda para que lidem com esse descompasso. Nem sempre com palavras, nem sempre com medicamentos, podemos ajuda-los com nosso silêncio, com nossa postura.

Esses dias li sobre algo “revolucionário”, dessa onda “vanguarda líquida”. Tratava-se de uma nova forma de atendimento clínico chamado  “slow medicine” – ou fazer a medicina como se fazia antigamente, devagar e com presença, assim tal dizia o psicólogo Carl Rogers ou orientava Hipócrates séculos atrás. De novidade, nada; mas um sinal que há insuficiência do taylorismo médico que nos deparemos frequentemente.

A complexidade do cuidado agora se potencializa com a acentuação da crise econômica, ou, com a entrada numa nova fase de relação social. Como assim? Talvez passemos a viver socialmente sob esse signo de insustentabilidade do neoliberalismo, não mais como em crises, mas como em definitivo. E entender a cultura se faz ainda mais necessário quando sentimos e sentiremos cada vez mais os seus efeitos nos pacientes e em suas famílias.

Digo isso porque a dinâmica do neoliberalismo faz com que o deslocamento dos mercados produtivos e de consumo aproxima as pessoas de um lugar desestabilizador. Principalmente quando o tempo vivido nessa instabilidade e de medo se prolonga. É um caminho curto para que os milhões de desempregados assumam exclusivamente para si o lugar de fracasso, basta que continuem seguindo dogmas da meritocracia e da responsabilização individual única. O que deveriam ter feito? Onde erraram? O que fazer para aliviar a culpa por escolhas? Como desembarcar de sonhos muitas vezes baseados no consumo? Sem dúvida, nos depararemos com muitos sintomas, agrupados em quadros típicos e novos. O vício na internet ou em redes sociais, a ortovigorexia. Situações desafiadoras mas que, ao acolhê-las, devemos lembrar que o que temos é a pessoa inteira à nossa frente, com suas circunstâncias, seus questionamentos. Pessoas que precisarão, em meio a uma situação adversa, se permitir o tempo da reconstrução, e também deixarem-se ser cuidadas. Pessoas que poderão procurar o profissional da saúde para saberem se o que pensam é normal, se são reações humanas e possíveis.

Usei novamente confusão porque, conforme o filósofo Franco Berardi, a sedimentação do neoliberalismo, em conjunto com a mediatização das relações de comunicação, afeta nossa sensibilidade e nossos processos cognitivos. Quando o excesso e a simultaneidade predominam, ficamos com uma capacidade crítica diminuída – em relação ao que nos cerca, à compreensão das causas e em relação a nós mesmos. E no contexto de crise, ser descartado resultará, provavelmente, numa dificuldade de assimilação causa-efeito desestabilizadora. Culpa, fracasso, raiva, medo, ódio, desesperança e apatia.

Tudo isso, pode estar presente dentro de uma cabeça, ou de várias sentadas numa mesa de jantar. Imagine, então, um pai desempregado ao buscar seu filho na escola. Costumava questionar suas notas, incentivava a comparação e competição com os coleguinhas. “Você já tem 9 anos, precisa ser o melhor. Se não for o melhor não terá sucesso.” De repente esse pai pensava até em colocar seu filho precocemente  num curso de empreendedorismo do SEBRAE, com 12 anos faria o Empretec… pensava, mas provavelmente, após culpar muita gente e partidos, ele vai começar, a partir de agora,  a se questionar.

Qual a verdade do seu discurso anterior? Que tipo de educação ele e a escola deverão oferecer ao seu filho? Há justiça no mundo? As regras e os valores dão mesmo segurança? Garantias?

Fica difícil não usar a palavra confusão. Fica difícil não perceber que temos e teremos muito trabalho enquanto cuidadores – um dos outros.

E quanto ao caminho do auxílio, ele pode passar por aspectos mais simples do cuidado, pela a aproximação com a própria natureza humana. Compreender-se como um ser em desenvolvimento, dotado mentalmente de ampla capacidade para o equilíbrio, dependente sempre de relações saudáveis e com potencial para fazer o bem pode ser uma alternativa. Quem sabe uma forma de diminuir o peso sob seus ombros.  Leituras, conversas, perguntas, psicoterapia, lazer. Compaixão consigo mesmo.

Humanizar os pacientes em tempos de descompasso e de crise é uma alternativa que não resolverá o sistema nem construirá uma nova ordem econômica e mundial – pelo menos por enquanto–, mas é uma vocação dos cuidadores, confortar e esperançar.

Há, felizmente, sinais de reação à situação posta. São as crescentes práticas e atitudes de resgate do humano, como a aproximação da medicina da religião e da espiritualidade. Também lembro da yoga e do voluntariado.  Outro aspecto que cabe salientar é a crescente aceitação da psicoterapia e da psiquiatria em nossos tempos. Isso, com certeza, marca uma reação ao que temos ao nosso redor.

Sobre esse conjunto de atitudes de resgate, ao desacelerar um pouco os pensamentos habituais, ou no contato verdadeiro com pessoas que precisam de ajuda, damos vazão às emoções positivas.  Saímos melhores, tornamo-nos mais auto-compassivos e pacienciosos com os outros. Às vezes, gratos.

Dentro do meio empresarial, já se procura valorizar executivos com competências relacionadas ao lado mais humano. Empresários prósperos já não toleram mais assediadores, afastadores de talentos e gerentes que se relacionam com os demais dentro do foco exclusivo no lucro. Os empresários que ainda valorizam profissionais assim acabam é encontrando dificuldades econômicas e sofrendo uma enxurrada de processos judiciais.

E como é importante que médicos se apropriem das questões que envolvem saúde ocupacional, para além da LER e DORT. Percebo que cada vez mais as dificuldades no trabalho estão diretamente relacionadas ao adoecimento precoce e permanente. Assédio, tédio, competição, estresse, problemas de comunicação e não-valorização são constantes focos de ansiedade e tristeza, que costumam evoluir para depressão.

Teremos agora, após pouco mais de uma década onde o desemprego esteve em declínio, um novo momento de tensão nas relações de trabalho. Como chegarão os pacientes ao nosso consultório? Quantos deixarão de procurar atendimento por questões financeiras? Quantos ficarão ainda mais confusos? Devemos lembrar que em suas formas de pensar e de se relacionar com o mundo, há o peso de ideias geradoras de culpa e muito ásperas do neoliberalismo.

Na passagem recente de Zygmunt Bauman, muito se comentou da sua crítica à pós-modernidade com o conceito de liquidez. As relações líquidas e o amor líquido se encaixam perfeitamente nesse contexto de internalização ambivalente do neoliberalismo. No entanto, outros pontos do pensamento do sociólogo podem ser lembrados, como os presentes em “Vidas Desperdiçadas” – livro que retrata justamente a fragilidade e o lado do fracasso do ser humano em nossa sociedade. E, o que acho que se encaixa ainda mais, algo muito perspicaz,  o dizer que hoje vivemos dias interregno: “quando os velhos jeitos de agir já não servem, mas os novos não foram inventados.” Bauman complementa: “Trinta anos de orgia consumista resultaram em um estado de emergência sem fim. O que pensávamos ser o futuro está em débito conosco. Para superar a crise, temos de voltar ao passado, a um modo de vida imprudentemente abandonado.” Seria um modo de vida mais próximo da nossa natureza humana?

Por fim, para limitar o impacto adoecedor do neoliberalismo, acredito que devemos pensar e favorecer alternativas principalmente para os mais vulneráveis ao sistema: as mulheres, os idosos, as crianças e os adolescentes.

Todos exigem cuidados, e serem considerados e tratados no viés da equidade;  no entanto, fica o registro que, silenciosamente, vivemos um absurdo crescimento na suicidalidade entre os adolescentes – sem falar no fenômeno simbólico da automutilação. Os adolescentes são alvos de todo lado nefasto do neoliberalismo, potencializado pela hiperconectividade e julgamento constante nas redes sociais. Como nasceram e foram criados dentro do neoliberalismo, a maioria não tem nem a chance de ser ambivalente. Como são nativos digitais, apresentam dificuldades para sensibilidade e para crítica. Muitos não conseguiram separar o que é seu fracasso e o fracasso do sistema no qual vivemos.

Para um grande número de adolescentes e adultos jovens, o sucesso parece inalcançável.

Não sendo essa uma experiência da qual tu consigas imaginar, eu te digo que ser jovem e conviver com a proximidade do fracasso, de ser invisível ou descartável não é saudável.

Hoje, o suicídio é a segunda causa de morte de jovens entre 10 e 24 anos. E não há remédio em miligramas para isso.

Precisamos compreender o mundo e cuidar das pessoas. “Re-humanizá-las” é a nossa missão de resistência.

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