A nova terceira idade: inteligência emocional e o mercado de trabalho

Publicado em 13 de março de 2017 às 9:58am

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Esta foto eu mesmo tirei em um estacionamento de shopping center de Porto Alegre. Trata-se de uma vaga reservada pra idosos. Responda sinceramente: Você quer estacionar o carro em uma dessas vagas? Esta é a imagem de idoso que você quer para si?  Gostaria de olhar a imagem e pensar “esse é bem eu”?

Tenho feito um exercício de observação e percebi que muitos idosos preferem não estacionar nas vagas que possuem esse tipo de imagem os representando. Talvez ela encontrasse espaço com os idosos de vinte anos atrás, mas não o faz mais com os de hoje. Por quê? Porque ela passa uma ideia de debilidade, fragilidade, doença, limitação, dependência.

Essa imagem da terceira idade tem mudado radicalmente nas últimas décadas e, acredito, que para você ela também tenha mudado. Para não deixar nenhuma dúvida, apresentarei algumas informações e argumentos que reforçam esse novo paradigma – ele é fundamental para um envelhecimento, logo, aposentadoria feliz.

Antigamente, as pessoas tinham um pensamento muito errado do que era a velhice – ou terceira idade para quem ainda se apavora ou não está acostumado com alguns termos. Até certo ponto, justifica-se essa visão equivocada porque, há pouco tempo, éramos uma população predominantemente de pessoas jovens. Isso é tão marcante que costumo classificar aqueles com mais de 80 anos como a “primeira onda” significativa de idosos que o país teve – hoje eles são mais de 2 milhões de pessoas.

Analisando como foi a construção social e a percepção acerca da velhice de quem hoje tem 60 ou 70 anos, eles não tiveram tantos idosos assim para se espelharem, para perceberem as virtudes que a terceira idade possibilita.  Muito dessa imagem que a eles chegava era de fragilidade, inutilidade e sofrimento. Soma-se a isso o crescimento da propaganda e do culto ao corpo e à juventude, atrelados a bens de consumo e a um ideal único de felicidade. Analisando esses pontos, entende-se por que se consolidou uma imagem pejorativa em relação à terceira idade: o idoso era feio; não teria criatividade; seria antiquado no mundo tecnológico e na era da rapidez das informações.

Graças a Deus, isso mudou e segue evoluindo bastante. Cabe sempre lembrar que, se não fosse essa pioneira onda, muitos desses mitos estariam enraizados na sociedade e, o que poderia ser ainda pior, na cabeça dos próprios idosos, especialmente os que associavam terceira idade à tristeza e à incapacidade.

Entrando mais a fundo no primeiro desses terríveis mitos, era comum associar a terceira idade à tristeza. “Seu avô está um pouco triste. É normal, ele está ficando velho.” Será que é isso mesmo: idoso e tristeza caminham juntos?

Mesmo não concordando com o termo “melhor idade” – acho-o um tanto quanto forçado – reconheço que traz consigo algo que pode ser verdade.  Sei que muitas pessoas podem discordar disso, inclusive você, e por isso acho interessante trazer um pouco de ciência à discussão. Vamos lá! Começo com uma pergunta simples: em qual fase da vida será que as pessoas são mais felizes? Será quando se é adulto, no auge da vida profissional? Ou no momento do nascimento dos filhos?

Uma pesquisa feita na Inglaterra e na Alemanha mostrou que, surpreendentemente, há uma tendência de queda nos índices de felicidade até os 40 anos, quando, então, eles começam a aumentar. Nessa amostra, a idade em que as pessoas sentiam-se mais felizes foi aos 74 anos! Outra pesquisa, dessa vez feita nos Estados Unidos, com 340 mil pessoas, mostrou algo muito parecido: a mesma tendência de queda nos índices de felicidade até os 50 anos, com subsequente aumento com o passar dos anos. Os mais velhos mostraram-se mais felizes e mais satisfeitos consigo mesmos.

“- Ah, Dr. Leandro, mas isso acontece é nos países ricos.” Diversas vezes, como palestrante, ouvi esse comentário ao trazer para meus ouvintes os resultados das pesquisas anteriores. No começo, ficava um pouco desconcertado em ter que fazer remendos para continuar com o foco da palestra. Às vezes, conseguia me sair bem, mas foi só após a UNIMED de Porto Alegre, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), começar a pesquisar localmente sobre índices de bem-estar que passei a tirar de letra esses frequentes comentários que desestabilizam qualquer palestrante. As anuais pesquisas feitas em Porto Alegre corroboraram com aquelas feitas na Europa e Estados Unidos, mesmo em bairros mais pobres.

O Índice de Bem-Estar da UNIMED/UFRGS avaliou, em cada uma de suas edições, aproximadamente 500 pessoas acima dos 18 anos. Bem-estar físico; autonomia; liberdade; convívio social; bem-estar psicológico e espiritualidade, num total de doze aspectos, formam o índice. Nos três anos de realização da pesquisa, os resultados sempre apontaram para uma vantagem dos idosos em relação aos mais novos – mesmo dentro das classes sociais mais pobres. Comparando-os aos jovens entre 20 e 24 anos, os idosos saíram-se melhores – veja bem – em todos os doze aspectos avaliados.

Quais seriam as explicações para todas essas pesquisas apontando para maiores índices de felicidade e bem-estar entre os idosos? Primeiro, na perspectiva de trajetória ao longo da vida, temos, na terceira idade, pessoas que já enfrentaram momentos extremamente cansativos e potencialmente causadores de ansiedade. Refiro-me ao início da vida familiar e profissional, à busca da estabilidade nesses campos e em aspectos financeiros, à criação de filhos e a crises diversas. Grande parte dos idosos passou por todas essas dificuldades e, posso dizer, aprenderam muito e aumentaram sua capacidade de reflexão. Outro fator que explica tais resultados é que o tempo nos ajuda a calibrar as cargas emotivas em nosso dia a dia, principalmente reduzindo excessos, culpa e autocrítica exageradas. Por último, lembro das conquistas pessoais que tendem a se somar com o passar das décadas, entre elas, ver os filhos seguindo suas vidas de maneira positiva, carreiras profissionais bem-sucedidas e, o que considero um grande motivador para o bem-estar dos idosos, a vinda de netos.

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Bem, dos dois mitos que desvalorizavam a terceira idade, o primeiro – que a associava à tristeza – foi rapidamente abordado e percebo que deixei pouca margem para quem ainda insistir em manter essa crença. Além dessas três pesquisas mencionadas, há dezenas de outras que apontam para o mesmo caminho. O segundo mito escolhido é bem mais fácil de contrapor – ele diz sobre as diversas incapacidades dos idosos.

Há cerca de seis anos, costumo utilizar nas palestras um estudo feito na Espanha, de 2003. Nele, diversas profissões foram analisadas quanto à capacidade produtiva por cada faixa etária de quem a desempenhava. Não me surpreendeu que historiadores, filósofos, escritores e cientistas tiveram o auge de sua produção intelectual não nos 30, mas sim a partir dos 60 anos.

Essa pesquisa serve sempre para iniciar o tópico, porque, hoje, felizmente, não é mais necessário apresentar mais estatísticas que comprovam as capacidades dos idosos: basta observarmos o mundo ao nosso redor com mais atenção e boa vontade. Como assim? Imagine o conjunto dos seguintes profissionais:

  • médicos bem conceituados;
  • professores e pesquisadores de ponta;
  • reitores das universidades;
  • engenheiros chefes de grandes obras;
  • presidentes e diretores de grandes empresas;
  • presidentes da República e primeiros-ministros pelo mundo;
  • deputados e senadores de boa reputação;
  • chefes religiosos.

Em todas essas funções, há uma demanda muito grande por diversas habilidades que envolvem capacidade de análise, tomada de decisão, resolução de conflitos e habilidades interpessoais – fora questões técnicas específicas. Quando dedicamos alguns segundos para evocar exemplos, a maior parte dos que vêm à mente são de pessoas que tranquilamente passaram dos 60 anos. Esse exercício, por si só, desmonta o mito que associa incapacidade à terceira idade. E, esse quadro de predomínio de idosos nessas funções de destaque, não é algo tão recente. Temos esse panorama há pelo menos três décadas aqui, no Brasil; porém, com as questões do baixo número de idosos ativos e a mídia que cultuou excessivamente a juventude, as capacidades da terceira idade não foram socialmente reforçadas.

Poderia, quem sabe, escrever páginas e páginas para ressaltar as capacidades dos mais velhos e o quanto somos delas dependentes como sociedade. Porém, deixo uma pesquisa com a qual tive contato ano passado, através de uma revista cuja capa destacava a longevidade como oportunidade de mão de obra qualificada. A seguir, trago uma breve análise de como o tipo de mão de obra pode impactar na produtividade do envelhecer e no processo de aposentadoria.

A revista em questão era a Exame e ela trazia dados de estudo feito pelo Centro de Pesquisa de Aposentadoria do Boston College, dos Estados Unidos. Ao analisar a produtividade de trabalhadores em diferentes faixas etárias, Gary Burtless, pesquisador-chefe, constatou que, em termos de rendimento em dólares por hora de trabalho, aqueles entre 60 e 74 anos eram mais produtivos do que os com menos de 25 anos. Isso mesmo!

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Na análise histórica, desde 1985, percebe-se que é justamente entre os 60 e 74 anos que a produtividade mais tem crescido. Em 1985, eles rendiam cerca de 20,9 dólares por hora; em 2010, 25,5, ou seja, um aumento de 21%. Na faixa etária entre 35 e 59 anos, esse crescimento em produtividade ficou em apenas 7%.

Por que os idosos norte-americanos estão se tornando tão produtivos no trabalho? Pelo fato de estarem mais saudáveis e, principalmente, terem uma escolaridade cada vez maior. Acredito que, em breve, teremos pesquisas parecidas aqui no Brasil, porque o processo de evolução social é o mesmo.

Tanto esse fenômeno de aumento na produtividade laboral quanto o alcance de posições de destaque por idosos em diversos campos têm explicação, na essência, o tipo de mão de obra que passamos a executar, principalmente, no último século. Tentarei explicar isso, mas já admito que não se trata de uma profunda ou requintada análise da questão – deixamos isso para sociólogos –, mas ela trará ao texto elementos importantes sobre capacidades e aposentadoria.

Bem, antigamente havia muitas profissões nas quais a principal demanda sobre quem as exercia recaía na força física – era o que se chama de trabalho braçal. Um exemplo típico era o quebrador de pedras. Não é que hoje trabalhadores braçais não mais existam; há bastante deles por aí ainda.  Porém, acredito que você, ou grande parte das pessoas ao seu redor, desempenha ou desempenhou sua profissão com base não na força de seus bíceps, quadríceps ou musculatura lombar, mas sim com a força de sua mente.

Professores, analistas, advogados, enfermeiros, administradores… são trabalhadores mentais – por que assim não dizer, ao contrapor com os trabalhadores braçais? Poderiam também ser chamados de trabalhadores sociais, emocionais e motivacionais. Olha, quebrar pedra o dia inteiro exige bastante performance física. Por outro lado, o que será que se espera de um trabalhador mental? Empatia, organização, perseverança, habilidade de motivar colegas e chefiados, humildade para reconhecer erros, visão de futuro, prudência, mediação de conflitos, tomada de decisão e por aí vai.

Essas habilidades são agrupadas num conceito muito importante, e logo você poderá perceber que está bem relacionado à terceira idade. Trata-se da inteligência emocional. Indo direto ao ponto: é o conjunto de habilidades não-técnicas da sua função que faz você ser um profissional bem sucedido hoje em dia, quando o conhecimento técnico específico como atributo definitivo para o sucesso fica reservado a poucas profissões. A maioria das profissões demanda, além do conhecimento técnico, um grau razoável de inteligência emocional. Essa combinação deixou de ser um diferencial competitivo e, hoje, é um pré-requisito, sempre bem avaliada em processos seletivos ou de promoções.

Bom, sei que para alguns leitores esse conceito é bem compreendido, no entanto, para deixá-lo bem claro, passo rapidamente para uma definição. Divide-se a inteligência emocional em domínios:

  • Capacidade de identificar nosso estado emocional.
  • Empatia – reconhecer e entender o que se passa com os outros.
  • Capacidade de lidar com nossas emoções e conduzi-las, bem como as    de  quem nos  cerca.
  • Capacidade de se motivar.

Há pouco, mencionei que há uma relação estreita entre terceira idade e inteligência emocional. Por quê? Já explico, mas, antes, vou lhe mostrar o quanto essas habilidades não-técnicas, ou conversacionais, influenciam diretamente na performance profissional.

Nos Emirados Árabes Unidos, em 2009, foi feita uma pesquisa pelo Dubai Knowledge Village, com 418 líderes de diversas profissões. O resultado encontrado foi tão impactante que se replicou em centenas de matérias e é muito usado por palestrantes sobre o assunto. Sabe por quê? Segundo os pesquisadores e suas estimativas, pelo menos 58% do sucesso desses profissionais se deu diretamente por causa da inteligência emocional.

Outra pesquisa foi mais específica e chegou a uma impressionante diferença de rendimento anual de vinte e nove mil dólares a mais em profissionais com inteligência emocional elevada. Explicar esses números não é complicado, afinal, quando se tem relacionamentos interpessoais melhores, quando se vale de maior autoconsciência e capacidade de motivação, vive-se e trabalha-se melhor, especialmente em funções que envolvem equipes.

Pare uns instantes e perceba o quanto, nessas décadas de trabalho, você aumentou sua inteligência emocional. O quanto algumas situações, no começo da vida profissional, lhe deixavam ansioso, irritado ou mesmo com muita raiva; e hoje já não mais lhe roubam tanta energia. O quanto você aprendeu a compreender o funcionamento de equipes, momentos certos de fazer reclamações ou solicitações, ou mesmo levar alguma ideia nova a um chefe. Perceba sua capacidade de ajudar os outros, compreendendo um pouco mais as difíceis situações pelas quais aquele subalterno ou colega poderia estar passando. Ou os momentos em que você pensou em largar tudo, mudar de emprego, chutar o balde ou procurar qualquer lugar isolado para chorar de desesperança. Mas, com o passar dos dias, você recomeçou, superando-se. Tudo isso é inteligência emocional. Exige esforço individual e leva tempo para ser conseguido.

Uma excelente notícia é que, com a idade, todo mundo aumenta sua inteligência emocional. Todo mundo!

Matéria da Universidade de Berkley: atingimos o pico de IE aos 60 anos.

Agora, acompanhe este problema: quando as pessoas estão lá pelos 53, 55 anos, no auge do domínio da sua técnica no trabalho e com a inteligência emocional em alta, o que acontece com elas? Elas se aposentam!  Ou o pior, nos anos que antecedem à aposentadoria, já são tratadas pelas empresas como pré-aposentadas, sendo deixadas de lado em projetos de desenvolvimento estratégico ou viram prioridades em listas de demissões.

Médicos, professores, gerentes, diretores de empresas, administradores, advogados, juízes, contadores, funcionários públicos de diversas funções, oficiais militares, engenheiros, jornalistas… todas são profissões nas quais, junto a aspectos técnicos, a inteligência emocional é fundamental para seus desempenhos. Hoje, graças a um bom nível educacional dos adultos na meia-idade, à experiência e à consolidação desse tipo de inteligência, esses profissionais tornaram-se fundamentais em qualquer segmento. Eles, sem dúvida alguma, após os 50 anos, vivenciam a plenitude intelectual de suas carreiras.

Sabemos que   a aposentadoria, claro que após contribuir 30 ou 35 anos para que ela ocorra, é um direito do trabalhador. Mas eu não consigo me conformar com o fato de uma pessoa – que, hoje em dia, pode ser considerada jovem – no auge da sua capacidade intelectual e emocional, não seja melhor “aproveitada” profissionalmente e se deixe ou permita aposentar-se.  Imagine só, um professor, podendo ser tanto do ensino médio quanto do superior, deixar toda sua “bagagem” e uma fonte de significado para, de um dia para o outro, ficar em casa. Eu, sinceramente, não me conformo com essa forma de encarar a aposentadoria que traz a sensação de ruptura, descarte e de uma generalização que suprime subjetividades. Felizmente, pesquisas recentes apontam que vivemos uma profunda mudança na forma como se idealiza e se pensa essa fase da vida.

Atentas ao potencial de quem passou dos 50 anos, algumas empresas e órgãos públicos – como apresentarei adiante – desenvolvem estratégias de compensação para que permaneçam em atividade. Analisando bem, há uma economia muito grande em treinamento de pessoal, risco diminuído de não adaptação à função e até ganho com a possibilidade de os funcionários mais experientes auxiliarem na capacitação dos mais novos. Além disso, devido à experiência, eles podem ser consultados na resolução e prevenção de problemas. Fora o retorno financeiro, para reter os aposentados, as empresas oferecem jornadas reduzidas ou flexíveis e adequações no ambiente de trabalho. Porém, ainda são poucas as que adotam tal prática, bem poucas, na verdade.

Em pesquisa feita mundialmente – em 31 países – pela empresa americana de recursos humanos Manpower, 30 mil empregadores foram entrevistados no ano de 2008. Desse total, 13% planejavam contratar trabalhadores mais experientes, enquanto 20% pretendiam mantê-los após a idade de aposentadoria. Esse número parece crescer, mas ainda está longe da realidade vivida no Japão. Lá, estima-se que até 83% das empresas invistam em estratégias para retenção dos profissionais em idade de aposentadoria que, diferentemente daqui, se dá somente após os 61 anos.

Com certeza, temos muito a ganhar com os trabalhadores dessa nova terceira idade. Acredito que a implantação da aposentadoria gradual contribuirá e muito para esse aproveitamento.

Esse foi um trecho do meu último livro, “Não se Aposente” (2015).

Um grande abraço, Leandro Minozzo

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