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A pessoa com Alzheimer pode dirigir?

Tirar o carro do papai é a mesma coisa que matá-lo. Ele dirige bem. De vez em quando surgem arranhões e batidas; há poucos dias ele perdeu o retrovisor. Diz para ele, doutor, que não dá mais pra dirigir.

Uma das avaliações e condutas médicas no cuidado de pessoas e de famílias com Alzheimer é justamente a manutenção ou a suspensão da direção de automóveis. Em casos nos quais o comprometimento das funções cognitivas é acentuado, é muito mais fácil para o médico fazer essa avaliação e para a família aceitar que aquele idoso não mais pode assumir o controle de um carro, de tomar decisões e executar manobras que podem comprometer a sua vida e a de outros.

O grande problema se dá no estágio inicial da doença, ou seja, na fase leve. Para quem não convive com o tema Alzheimer, muitas vezes essa discussão toda pode parecer até sem propósito; qualquer pessoa com o diagnóstico de demência deveria ser tolhida do direito de dirigir e ponto final. No entanto, no estágio leve, a pessoa apresenta dificuldades em memória recente e em aprendizado, preservando, muitas vezes, outras funções que a permitem dirigir e não colocar os outros em risco. O ato de dirigir fica automático, posso assim dizer, e a pessoa consegue executá-lo de maneira apropriada.

Quando tenho essa conversa com os familiares e o paciente, busco saber a realidade do que vem acontecendo e, por isso, faço perguntas bastante elucidativas. Velocidade adequada, aceleração desproporcional, acidentes, mudanças de faixa, distância do outros carros, obediência dos sinais e regras de trânsito – são pontos abordados nessas perguntas. Durante a consulta, testes cognitivos são realizados para avaliar capacidades como planejamento, julgamento e atenção. Nem sempre, são momentos fáceis na relação médico-paciente-família, porém, liderar essa mudança é extremamente importante na medida em que envolve a proteção da vida. Uma dificuldade que testemunho, nessas situações, é a resistência dos próprios familiares em adotar as mudanças. Em alguns casos, só decidem dar ouvidos quando acidentes acontecem.

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