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Hillary Clinton e a pneumonia: conheça as vacinas para essa doença.

Publico novamente o post sobre a pneumonia da Hillary. Acho importante falarmos sobre a prevenção para essa doença.

Na semana passada, a candidata à presidência dos EUA, Hillary Clinton, sentiu-se mal e precisou de atendimento médico. Provavelmente, devido à sobrecarga da campanha, sua imunidade não conseguiu poupar-lhe de uma pneumonia. Resultado: desmaio, desidratação e afastamento dos palanques, dando margem a pequeno, porém sempre preocupante, crescimento do rival Donald Trump. Houve muito especulação, inclusive com questionamentos quanto à saúde e condições de Hillary para ser a presidente.

hillary

Hillary, com 68 anos, portanto uma pessoa idosa (por lá o limite etário para essa definição é a partir dos 65 anos), independente de qualquer condição de saúde, estava e está em risco para o desenvolvimento de pneumonia – a doença “amiga” dos idosos, conforme disse o Dr. William Osler, no final do século 19.

Mas o que podemos capturar de informação relevante, qual o gancho para a educação em saúde nesse caso de adoecimento de uma celebridade: lembrar da vacinação específica para a pneumonia.

Primeiro, destaco que é um assunto diferente da vacinação para a gripe.

Sabe-se que  anualmente ocorre a campanha nacional de vacinação contra a gripe. Gestantes, crianças, pessoas de determinados grupos de risco e idosos precisam tomar a vacina, principalmente depois do susto que tomamos com a epidemia de 2009. Era plantonista naquela época e realmente foi uma situação tensa: precisávamos atender com máscara, víamos pessoas piorarem rapidamente e todos médicos se assustaram. Tomara que não se repita tão cedo!

Sobre a vacina, mesmo com aquele susto,  há ferrenha resistência de alguns idosos. Porém sabemos que ela “funciona”,  previne os idosos da gripe, diminuindo, consequentemente, riscos de desenvolvimento de doenças associadas, como o infarto do miocárdio. Isso mesmo: a vacina da gripe está associada à incrível redução de até 30% nos casos de infarto!

Com o adoecimento de Hillary Clinton, acho pertinente aproveitar a ocasião para destacar a necessidade da imunização contra outra doença respiratória bem comum na terceira idade: a pneumonia. Preste atenção! Não tem nada a ver, ao menos diretamente, com a gripe – doença causada por um vírus.  A questão é outra: uma infecção bacteriana dentro dos pulmões, causando mal-estar, desidratação, insuficiência respiratória e que pode ocasionar internações e evoluir para a perigosa sepse.

Trata-se, portanto, de uma vacina específica contra determinados tipos da bactéria chamada pneumococo – Streptococcus pneumoniae.  Ela é responsável por grande parte dos casos de pneumonias graves e infecções generalizadas nos idosos. Por alterações próprias do envelhecimento, somadas à doenças como bronquite e diabetes, muitos idosos são mais vulneráveis a esse tipo de infecção.

O SUS disponibiliza a vacina pneumocócia 23-valente (polissacarídica) aos idosos acima dos 60 anos acamados, aos que apresentam doenças graves cardiovasculares e respiratórias ou, então, aos que residem em instituições de longa permanências – denominação técnica para lares, residenciais de repouso e asilo, como queiram –, além daqueles internados em hospitais. Basta a solicitação do médico assistente e a vacina é feita gratuitamente.

Existe outra vacina, mais recente, chamada conjugada 13-valente (13 v), que também protege contra o pneumococo. Ao contrário da 23-valente, ela é feita em dose única. Pode ser indicada já a partir dos 50 anos em pessoas com doenças crônicas (bronquite, asma, diabetes, problemas cardíacos, etc) ou aos 60 anos em pessoas saudáveis. Ela encontra-se amplamente disponível em clínicas de vacinas, ao custo aproximado de 260 reais.

A conduta mais correta atualmente é que se ofereçam os dois tipos de vacina  a todos os idosos. O detalhe importante é que se faz necessário um intervalo de 6 meses ou de 12 entre as aplicações(*). O ideal é que sempre seja o médico que faça essa prescrição.(4)

E aqueles com 65 anos ou mais e que não se enquadram nos critérios de distribuição gratuita do SUS?

Enquanto os critérios do Ministério não mudam, esses idosos devem procurar clínicas privadas para fazer a imunização. Vale a pena. Uma pesquisa feita em São Paulo, publicada em 2011, mostrou que a vacinação é extremamente custo-efetiva e deveria ser incentivada pelos agentes de saúde. (2) Os efeitos adversos são leves, como, do tipo eritema (vermelhidão) e dor local. Febre, dor muscular e reações locais graves ocorrem em menos de 1% dos adultos vacinados.

Quanto aos benefícios da vacina, segundo uma pesquisa feita com idosos na Espanha, cabe destacar sua efetividade, que pode chegar a mais de 75% em pacientes sem alterações imunológicas. (3) Uma revisão da Cochrane foi até mais longe, indicando uma efetividade superior a 80% (82% para doenças invasivas).

O assunto é importante, pois há muito sabemos que a pneumonia é uma das principais causas de morte nos idosos.

No caso específico da candidata Hillary Clinton, há a suspeita que a pneumonia possa ter sido causada por uma outra bactéria, chamada Mycoplasma pneumoniae. A especulação na imprensa e em médicos consultados deve-se ao fato da candidata vir com sintomas como tosse já há mais tempo. A doença pelo M. pneumoniae cursa com um quadro realmente mais insidioso e brando. Bom, mas isso tudo fica muito quadro de especulações. Os médicos que dela cuidaram não revelaram maiores detalhes.  No entanto, o que sabemos em termos de epidemiologia – ciência que estuda as “estatísticas da saúde” – é que o principal vilão é o pneumococo.

Converse com seu médico.

 

Grande abraço, Leandro Minozzo

 

(*) Para médicos: A SBIm e a SBGG recomendam a vacinação rotineira de maiores de 60 anos com VPC13, seguida, após seis meses a 1 ano, de VPP23. Para aqueles que anteriormente receberam uma dose de VPP23, respeitar o intervalo de um ano para aplicar a VPC13 e agendar uma segunda dose de VPP23 para cinco anos após a primeira VPP23.  Se a segunda dose de VPP23 foi aplicada antes dos 65 anos, está recomendada uma terceira com intervalo mínimo de cinco anos.

 

(1) Calendário de Vacinas do Adulto do Ministério da Saúde:

 http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=21464

 (2) http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3256326/

(3) http://cid.oxfordjournals.org/content/40/9/1250.full

(4) Calendário de Vacinação do Idoso (SBIm 2013/2014)

Outras referências:

 N Engl J Med. 2015 Mar 19;372(12):1114-25.

http://erj.ersjournals.com/content/early/2015/07/09/13993003.00325-2015.long

 

 

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8 Comentários

  1. ronaldo batista pinto

    Faço quimioterapia em virtude de mieloma múltiplo.

    Sei, por isso, que algumas vacinas me são proibidas, em razão do transplante de medula óssea, realizado há um ano.

    Posso tomar a vacina contra a pneumonia?

    grato

  2. marilena cunha cesar

    Fui ao posto ontem para tomar a vacina da gripe e da pneumonia pois faziam seis anos que havia tomado a última dose da última . A funcionária do posto me disse que agora não se dá mais a vacina de pneumonia em idosos. Fazer o que?

  3. Álvaro Cabral de Oliveira

    Tenho 74 anos tomo a vacina contra a gripe anualmente, gostaria de saber se devo tomar a prevenar 13 também, ou se tem alguma contra indicação em virtude de eu já tomar a outra nos postos de saúde.!

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