O Excesso de Omeprazol: Ainda Mais Riscos

Publicado em 27 de outubro de 2017 às 6:12am

“Doutor, tomo omeprazol por causa dos outros remédios.” Será que é assim mesmo que funciona?

Ao anteder pacientes na meia e terceira idades, é comum deparar-me com listas de medicação relativamente vastas… algumas facilmente passando das doze e ocupando frente e verso do receituário. A essa condição, presente em 40% dos idosos, damos o nome de polifarmácia. Entre suas consequências, as mais óbvias são confusão, problemas de adesão, interações medicamentosas e quedas – sempre perigosíssimas para os idosos.

Tentar organizar a prescrição, ou as diversas prescrições vindas de muitos especialistas, é uma das tarefas de clínicos e de quem atua na geriatria. Entre os medicamentos mais comumente prescritos e que consigo retirar com maior facilidade estão os da classe dos inibidores da bomba de prótons (IBP) – capitaneados pelo omeprazol. “Seu José, por que você usa esse omeprazol duas vezes ao dia?” – pergunto. “Doutor, é porque tomo muitos remédios. É para proteger o estômago e não faz mal.” – é uma resposta frequente. Há indicação científica para o uso de IBP para casos de polifarmácia? O uso do omeprazol – ou de qualquer outro da sua classe – realmente não faz mal?

Vamos lá.

Os inibidores da bomba de prótons diminuem a produção de ácido pelo estômago, aumentando o pH e reduzindo sintomas ocasionados por gastrites e, pelo cada vez mais presente, refluxo gástrico. Em pacientes que sofrem com essas doenças e de algumas outras mais raras, o uso dos “prazóis” realmente ajuda e muito – claro que sempre após avaliação médica detalhada.

O grande problema se dá na prescrição excessiva dos IBP. Em pesquisa feita em Singapura, em 2014, 81% dos idosos atendidos que faziam uso da classe, não tinham indicação correta. Em outro estudo, feito nos Estados Unidos, esse número foi também elevado: 52%.

Sobre a principal indicação nesses casos, temos a prevenção ou proteção quando do uso de outras medicações – isso em pacientes não hospitalizados. Cientificamente, isso não encontra amparo algum. A única indicação preventiva dos IBP é na concomitância com os antiinflamatórios, entre eles os corticoides – em suas diferentes apresentações – e dos não esteroidais (diclofenaco, ibuprofeno, cetoprofeno, nimesulida, naproxeno, entre outros). Hoje, para ilustrar essa indicação, existe até um anti-inflamatório que combina naproxeno com um IBP. Excluindo-se essas medicações antiinflamatórias, que devem ser prescritas com bastante cuidado em idosos e costumam ser indicadas por pouco tempo, não há necessidade do uso de inibidor de bomba para prevenir “dor de estômago” ou “proteger” o órgão em casos de polifarmácia.

Até porque essa prescrição ou automedicação pode, ao contrário do que me disse o Sr. José, ocasionar alguns sérios problemas de saúde. Entre eles, mascarar um condição tratável, como a infecção pela bactéria H. pylori. Sem contar que essa classe interage com dezenas de medicamentos, como antidepressivos (entre eles o citalopram), o antiagregante plaquetário clopidrogrel e antibióticos, como a amoxilicina. Além disso, interferem na absorção do hormônio da tireoide (levotiroxina) e diversos suplementos de cálcio. Pouca gente sabe, mas o uso de qualquer um dos inibidores de bomba causa dificuldade na absorção de nutrientes como vitaminas (D e B12, por exemplo) e minerais (zinco, magnésio, ferro e cálcio). Não é à toa que existe um risco aumentado para osteoporose e fraturas. Outra condição que o consumo da “família do omeprazol” pode ocasionar, por reduzir a barreira ácida no estômago, são infecções intestinais por uma bactéria complicada chamada Clostridium difficile.

Pessoalmente, posso falar sobre o uso dos inibidores da bomba de prótons. Tenho a doença do refluxo gastroesofágico. Em decorrência de sintomas, fiz uso de esomeprazol em algumas ocasiões. No entanto, consigo controla-los perfeitamente adotando hábitos comportamentais preventivos: fraciono refeições; evito exageros, frituras, alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas; não me deito logo após me alimentar; e, com  dificuldade, mantenho o peso adequado.

 

Nos últimos dois meses, pesquisas publicadas reforçaram que devemos ter atenção quanto aos riscos do uso excessivo dos inibidores da bomba de prótons: problemas hepáticos, insuficiência renal e infarto e derrame cerebral. Pode haver um efeito inibitório dessas medicações na ação do ácido acetilsalicílico, por exemplo, o que explica o aumento de eventos cardiovasculares em grupos de pacientes com alto risco.

 

O que faço no consultório?

Em pacientes que usam omeprazol – ou seus “irmãos” – e não tiveram uma investigação feita, tento verificar a necessidade de indicar a endoscopia. Costumo indicar o exame caso o paciente não tolere a retirada da medicação, mesmo adotando medidas comportamentais. Geralmente, a retirada supervisionada costuma ter sucesso.

Detalhe: a retirada tem que ser sempre orientada por um médico e deve ser feita gradualmente. A retirada abrupta pode aumentar sintomas de dispepsia, dificultando que o paciente se convença de que não há necessidade de interromper o uso.

Como vimos, com essa conduta de prescrição excessiva, o paciente é exposto a menores riscos, sem contar os benefícios psicológico (por usar um medicamento a menos) e financeiro (que costuma variar entre 360 a 720 reais/ano).

Vale a pena, com certeza, conversar com seu clínico a respeito desse assunto.

 

Um grande abraço,

Leandro Minozzo, médico geriatra e nutrólogo

CREMERS 32053

 

Fontes:

Australas Med J. 2014 Nov 30;7(11):465-70. doi: 10.4066/AMJ.2014.2093. eCollection 2014; J Am Med Dir Assoc. 2013 Jun;14(6):429-32. doi: 10.1016/j.jamda.2013.01.021. Epub 2013 Apr 9.; Ann Pharmacother. 2013 Jun;47(6):773-80. doi: 10.1345/aph.1R556. Epub 2013 Apr 30.;

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