Não adoeça em tempos de crise!

Não adoeça em tempos de crise!

Publicado em 21 de julho de 2017 às 10:22am

Pesquisas comprovam que passar por crises financeiras pode ser extremamente prejudicial à saúde. Veja o que gregos e argentinos têm a nos mostrar e quais caminhos seguir.Greek-protests-589130
Após mais de uma década vivendo num cenário econômico favorável, com desemprego em queda e forte aumento do consumo, vivemos agora um momento de dificuldade. Com a hiperveloz e a ampla circulação de informações, na forma de notícias e posts, a percepção da crise financeira, cercada por enviesada por bastante pessimismo, tem agido como promotora de seu agravamento. E o que isso tem a ver com a sua saúde? Acredite: muito mais do que você possa imaginar!

Em 2006, ano de copa do mundo, apresentei um pôster no congresso brasileiro de psiquiatria. O tema era bem curioso: impacto de resultados do futebol no número de casos de infarto. Como era de se esperar, torcer para o time errado aumenta e muito o risco de visitas indesejáveis à emergência cardiológica – e isso acontece no mundo todo. Falando em torcer para o time certo ou errado, poucos meses depois, após o iluminado gol de Adriano Gabiru e os gritos de Galvão Bueno dizendo que a Terra era vermelha, muitos gremistas passaram mal e pode ser que alguns tenham até falecido após o apito final.

Hoje, com esse cenário econômico e político (e de qualidade de análise e discussão) ruins, percebo muita gente amargurada. No consultório, tenho conversado com pacientes jovens que relatam medo, ansiedade e até mesmo desesperança ao verem seus planos terem que ser revistos. Já nos casos dos mais experientes, percebo um pouco mais de tranquilidade – parecem não se abater tanto, afinal, sobreviveram já a tantas outras situações difíceis.

Assim como no caso do estresse do futebol na televisão, há agora uma preocupação com a saúde das pessoas nesse momento de revés. Para aqueles que já não vinham bem de saúde, a sobrecarga de estresse pode piorar e muito indicadores importantes, como o peso corporal, os níveis de pressão arterial e a liberação excessiva do hormônio cortisol. Como essa “negatividade” vem rondando os bate-papos e perseguindo os brasileiros há pelo menos seis meses, já começam a surgir casos reais de adoecimento – o que torna a possibilidade de recuperação financeira dessas pessoas ainda menos provável!

E ao falar em crise, fica difícil não trazer a Grécia para o assunto. Nos últimos dois anos, algumas interessantes pesquisas foram publicadas justamente comprovando o impacto negativo da crise econômica grega na saúde de sua população. Elas demonstraram que a saúde mental tem piorado e, o que pode acontecer por aqui também, a adesão ( = fidelidade) aos tratamentos despencou! Em estudo bastante recente, agora de 2015, feito por Tsiligianni et al., com quase 300 idosos da ilha de Creta, pacientes reduziram as doses de medicamentosos para doenças graves, como DPOC e asma e diabetes – isso mesmo!, eles diminuíram por conta a dosagem de insulina-, devido a dificuldades financeiras. No mesmo levantamento, sentimentos de tristeza, medo e ansiedade foram relatados como frequentes.
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Uma informação muito triste, porém ilustrativa do que pode representar esse assunto em termos de impacto e capacidade de roubar a alegria e a saúde das pessoas, é que houve um significativo aumento nos casos de suicídio na Grécia. Até 2007, havia uma tendência de redução nos casos (menos 3,9%), e após o colapso de 2008, foi detectado um aumento em quase 35%! Esse lamentável aumento ocorreu principalmente em homens, na faixa dos 20 aos 59 anos e em idosos. Entre jovens, a desesperança com qualquer futuro e o desemprego podem ter sido os grandes indutores dessa atitude desesperada; enquanto nos idosos, o sentimento de injustiça, aliado à perda de investimentos de uma vida e a redução na aposentadoria podem ser os culpados.

Continuando com estatísticas ruins, porém vindas da Argentina, um estudo de análise de mais de 3300 prontuários, comprovou que o número de infartos mais que dobrou em momentos de crise (1999-2002). Além disso, casos de insuficiência cardíaca também subiram e, o pior, a mortalidade dos pacientes atendidos aumentou em 20%! Quando falo em tristeza, medo… sei que parece um pouco abstrato para muita gente, porém, esses números de mortalidade e suicídio com certeza apontam a gravidade da relação crise-saúde.

Em outra perspectiva do mesmo problema, pesquisas apontam a redução na oferta de cuidados e prevenção por parte do poder público. Houve até mesmo diminuição no incentivo à vacinação em outros países europeus após o estouro da atual crise, em 2008. Em termos de saúde pública, em momentos como esses que passam alguns países europeus, as pessoas em vulnerabilidade acabam sofrendo mais.

Qual é a mensagem que deixo para você?

Cuidado para não entrar nesse ciclo viciosíssimo de ansiedade e desesperança. Nesses tempos, precisamos controlar ao máximo o conteúdo de nossos pensamentos e buscar um pouco de paz e equilíbrio, só assim ideias boas virão. É, pelo que se sabe, a criatividade não costuma bater na porta de mentes carregadas, inundadas de cortisol, que comandam corpos cansados.

As coisas estão difíceis? Experimente cuidar um pouco mais de você!

Se tem sido complicado enfrentar tantos problemas, se está difícil até mesmo relaxar ou sentir prazer em pequenos detalhes que antes lhe alegravam, busque ajuda. Tente não contaminar sua família com esse redemoinho de pensamentos catastróficos, que não lhe levam a lugar algum.

Experimente caminhar ao ar livre. Que tal um parque ou o interior? Afinal, é grátis.

Experimente ler um daqueles livros que fazem bem. “A semente da vitória”, “Anticâncer” ou um romance de um escritor que você seja fã (gosto muito dos do Chico Buarque).

Experimente começar uma dieta. Como assim?! Desviar o foco dos problemas para algo saudável pode ser uma excelente solução para aqueles quilinhos a mais. Pode ter certeza, após 15 dias de uma alimentação balanceada, seu nível de bem-estar aumenta e você estará muito menos cansado.

Experimente retomar algumas práticas de espiritualidade, ou combinar momentos de diversão com a família e amigos.

Experimente uma folga de “notícias ruins”, ou até mesmo de pessoas que baixam seus níveis de oxitocina, ou seja, desagradáveis.

Felizmente, são escolhas que você pode fazer.

Enfim, que nós não passemos pelo que os Gregos estão vivendo agora. E que os brasileiros sejam mais sábios, e não adoeçam ainda mais.

Abraços, Leandro

Leia mais em: http://money.cnn.com/2015/07/10/news/economy/greece-health-care-crisis/

Referências:
Soc Sci Med. 2015 Mar;128:43-51.
Infect Dis (Lond). 2015 Jul;47(7):437-46.
Stud Health Technol Inform. 2015;213:207-9.
Qual Prim Care. 2015;22(5):238-44.
Thromb J. 2005 Dec 13;3:22.
BMJ Open. 2015 Mar 25;5(3):e007295.
Psychiatriki. 2013 Jul-Sep;24(3):170-4.

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